observador.ptObservador - 27 out. 00:13

Rio e anti-Rio

Rio e anti-Rio

Rangel tem importantes qualidades: é inteligente, experiente, culto e combativo. Mas o que está em causa nas eleições no PSD não é Rangel mas sim uma coligação anti-Rio de que ele é cabeça de cartaz.

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O aparente colapso da geringonça que se seguiu ao recuo da esquerda nas eleições autárquicas, conjugado com as nuvens macroeconómicas que se acumulam no horizonte, fazem com que as eleições internas no PSD ocorram num contexto pantanoso e de elevada incerteza. Circunstâncias que são acentuadas pelas profundas divisões internas no PSD. A instabilidade interna no PSD em períodos de oposição está longe de ser uma novidade, mas o actual contexto apresenta duas características distintivas que devem ser realçadas. A primeira é a concorrência de dois novos partidos à direita – Iniciativa Liberal e Chega – que disputam e condicionam o espaço eleitoral do PSD. A segunda é que ao longo dos últimos anos a clivagem principal que se estabeleceu no PSD foi entre quem apoia e quem se opõe a Rui Rio, mais do que qualquer divergência programática ou ideológica.

Curiosamente, Rui Rio e Paulo Rangel são dois velhos conhecidos, tendo aliás já sido bastante próximos no PSD. Importa também recordar que há menos de dois anos, em Dezembro de 2019, Rangel apoiou a reeleição de Rio como líder do PSD salientando que: “Não devemos mudar de líder só porque o resultado das eleições não foi o melhor”. Não faz assim muito sentido falar num hipotético “regresso do pessimismo” (importa recordar também que Paulo Rangel foi o principal opositor de Pedro Passos Coelho na disputa pela liderança do PSD em 2010). Rangel tem várias importantes e inequívocas qualidades: é inteligente, experiente, culto e combativo. Mas o que está fundamentalmente em causa nestas eleições internas no PSD não é Rangel mas sim uma coligação anti-Rio de que Rangel é cabeça de cartaz. Basta aliás observar com atenção os apoios públicos recebidos por Paulo Rangel para perceber que o principal elemento de união em torno da sua candidatura é o desígnio (legítimo) de afastar Rio da liderança do partido.

Rio teve uma derrota pesada nas legislativas de 2019 e as sondagens sugerem que tarda em conseguir afirmar o PSD como uma alternativa credível de governação ao PS. É por isso natural que parte das bases de um partido de poder como o PSD esteja insatisfeita e anseie por uma mudança e por um líder que garanta vitórias. A seu favor, Rio tem para apresentar os bons resultados do PSD nas recentes eleições autárquicas e conta também com a tradicional vantagem do incumbente junto das bases, ainda que a recente votação em Conselho Nacional de que saiu derrotado deva ser uma causa de preocupação para a actual liderança.

Mas talvez o dado mais relevante a ter em conta seja que nem Rio nem Rangel têm um registo de sucesso eleitoral recente. Nas legislativas de 2019, o PSD liderado por Rio conseguiu apenas 27,8% dos votos, o que é sintomático. Mas é igualmente sintomático que também em 2019, e com Rangel como cabeça de lista, o PSD tenha obtido apenas 21,9% nas europeias, o pior resultado de sempre do partido nesse tipo de eleições (ainda que certamente com responsabilidades partilhadas com o próprio Rio). Em resumo: nenhum dos candidatos que se apresenta na disputa pela liderança do PSD tem um registo eleitoral recente particularmente estimulante.

É verdade que vários factores internos e externos sugerem que podemos estar a caminhar para um pântano político e, nesse contexto, tudo pode mudar rapidamente. Mas, mesmo com a previsível incorporação numa coligação pré-eleitoral do que resta do CDS, está longe de ser certo que o PSD consiga capitalizar a seu favor um cenário de crise e travar o crescimento do Chega e da Iniciativa Liberal.

Salvaguardar o espaço tradicional do PSD no sistema partidário português é aliás mais uma dimensão em que não é para já claro que uma eventual liderança de Rangel consiga ser mais eficaz do que a de Rio, em especial no que diz respeito a travar o crescimento do Chega. Enquanto a disputa eleitoral interna no PSD fica marcada por uma forte polarização personalizada em torno da manutenção ou afastamento de Rio da liderança, o que pode estar em causa nos próximos tempos é a reconfiguração da direita portuguesa, com a consolidação dos dois novos partidos e uma maior fragmentação deste espaço.

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