observador.ptObservador - 26 out. 00:17

Costa como Sócrates durou 6 anos. E agora?

Costa como Sócrates durou 6 anos. E agora?

Pena que Marcelo, o maior analista político do país, não tenha percebido há dois anos o que o fraco analista Aníbal Cavaco Silva percebeu na hora. Geringonças só de papel passado.

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Fazer previsões em política é ainda mais perigoso do que tentar fazê-las no futebol. Assumo que fiz parte dos muitos que apostavam que não ia haver crise. Nas contas racionais que é possível fazer, a esquerda só tem a perder em ir agora a eleições. As sondagens ainda não o mostram, mas, acordando o monstro das eleições antecipadas, tudo pode mudar muito rapidamente.

Se este é o cenário racional, porque terão Bloco de Esquerda e Partido Comunista apostado tudo numa crise política que é em tudo parecida com aquela que fez cair José Sócrates, abrindo a porta ao governo de Passos Coelho? A resposta parece-me ser a constatação de que o casamento destes partidos com o Partido Socialista não lhes traz nada de bom. O PS não arrisca levá-los para o Governo porque verdadeiramente discorda no essencial dos caminhos que a extrema-esquerda propõe. BE e PCP acabam a perder o seu sentido no xadrez político. Os últimos seis anos provaram que o eleitorado não comprou a ideia de que continuavam a ser partidos de protesto, ao mesmo tempo que traziam o governo de António Costa ao colo. Foi uma boa tentativa, mas não resultou.

Aqui chegados, voltamos a 2015: a direita consegue encontrar pontes de entendimento que lhe permitam governar e a esquerda não. Os sinais são claros e estão à vista de todos. Compete agora à direita organizar-se de forma a mostrar que tem uma alternativa segura para o país com soluções para sairmos do pântano em que estamos de novo metidos e deixando de lado os extremismos inconsequentes.

Ao PS resta pedir uma maioria absoluta, muito pouco provável neste momento, ou então fica sem soluções. BE e PCP vão sofrer as consequências de terem namorado com o poder e de o terem abandonado a meio do caminho, mas pode ser que ainda fiquem de pé para reassumirem o seu papel de agitadores do regime.

Se tudo acabar como parece, com o orçamento chumbado, o Presidente vai fazer agora o que lhe resta: dissolver o Parlamento. Pena que o maior analista político do país não tenha percebido há dois anos o que o fraco analista Aníbal Cavaco Silva percebeu na hora. Geringonças só de papel passado. Marcelo quis ser simpático e estalou-lhe na mão a batata quente.

Para marcar a data das eleições o Presidente tem de esperar pelas decisões dos dois principais partidos à direita e esse processo só estará completo no final de janeiro. A acontecerem, as eleições serão provavelmente em março. A consequência é que entramos em 2022 com o país a ser governado com duodécimos, o que deverá acontecer durante a primeira metade do ano. Antes que comece a dramatização, é importante perceber que, perante as opções que temos, os duodécimos são o mal menor. O orçamento que está em cima da mesa é ruinoso para o futuro do país, e daqui para a frente só pode piorar.

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