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A dramatização à volta do OE

A dramatização à volta do OE

Por estes dias, haverá várias negociações de bastidores para se chegar a um compromisso para a aprovação do Orçamento do Estado. Pouco se sabe do que aí se discute. Aos jornalistas, os políticos ensaiam o seu poder em cena. E muitas vezes isso é um pálido reflexo daquilo que se passa.

Já conhecemos este filme. Nos últimos seis anos, o Governo de António Costa lá vai esperando que a Esquerda deixe passar o seu Orçamento. Nas semanas que antecedem a votação, carrega-se na dramatização. PCP e BE aproveitam para fazer alguma prova de vida, esforçando-se para que algumas alterações ao documento sejam da sua exclusiva responsabilidade. Por seu lado, o primeiro-ministro e alguns dos seus ministros vão ensaiando aproximações discursivas a estes partidos. Ontem, em reunião com o seu grupo parlamentar, Costa falou da atitude de "humildade" do seu executivo e prometeu uma agenda de Esquerda nas decisões do próximo Conselho de Ministros (trabalho digno e estatuto do SNS); Mariana Vieira da Silva, em entrevista ao "Público" e à RR, garantiu que "o OE apresentado tem uma marca de Esquerda bem visível"; e Pedro Siza Vieira, em entrevista à RTP, descartou o PSD de qualquer negociação, tornando claro quem são os parceiros que contam.

Também o presidente da República entrou neste jogo de pressão máxima, lembrando que um chumbo do OE implica eleições antecipadas. "Será o novo OE assim tão diferente deste que compense os custos da paragem do país durante alguns meses?", atirou Marcelo Rebelo de Sousa para responder assim: "Não sei. Vou ouvir os partidos. Pode ser que eles me expliquem que sim". Ficou dado o recado à Esquerda. No entanto, no "Avante" desta quinta-feira escrevia-se que, apesar de ainda "ser tempo de encontrar soluções", a proposta feita "conta hoje com o voto contra do PCP". Porque o decisivo não está lá.

Ora, se o BE vai sempre jogar com o efeito mediático e com as consequências nas urnas que terá para si a queda do Governo, o PCP rege-se por lógicas diferentes, mais subterrâneas e nem sempre óbvias. Por isso, pode haver surpresas, embora isso possa ter um custo pesado para os comunistas e Jerónimo de Sousa não o ignora.

Do lado da Direita, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos encaram o chumbo do OE como uma bênção. Um cenário de eleições antecipadas poupar-lhes-á a revolta interna que está em marcha e a disputa da liderança dos respetivos partidos. Resta saber que fumo sairá das reuniões que Costa decerto está a promover. Longe de qualquer olhar público, como sempre aconteceu neste contexto.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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