visao.sapo.ptapfigueiredo - 14 out. 08:30

Visão | Da falta de compostura institucional

Visão | Da falta de compostura institucional

A pessoa que, agora, fala da partidarização das Forças Armadas foi a mesma que lançou um partido enquanto Presidente da República. Bem sei que a memória não é o forte dos portugueses, como também não ignoro que adoramos pessoas que batem constantemente no peito a gritar que são muito sérias, mas lembro que foi Ramalho Eanes que lançou o PRD, cuja única bandeira era ser patrocinado por ele próprio desde o Palácio de Belém

O segundo ex-Presidente da República que decidiu intervir no espaço público sobre assuntos de política corrente foi Cavaco Silva.

O ex-primeiro-ministro escreve um longo artigo no Expresso, em que afirma que a culpa do nosso atraso se deve exclusivamente ao Partido Socialista, que está manietado pela extrema-esquerda (sendo que a crise das dívidas soberanas e a pandemia não passam de desculpas de mau pagador), que vivemos numa democracia amordaçada, onde as pessoas têm medo de criticar o Governo, e que a oposição não vale um caracol.

Não espantará ninguém a opinião de Cavaco Silva sobre a governação socialista (partilho algumas das suas críticas, já agora), nem me parece contestável a apreensão que o ex-Presidente mostra sobre o nosso baixíssimo crescimento dos últimos 20 anos. Encolhamos os ombros ao disparate de vivermos em claustrofobia democrática e à patetice de as pessoas terem medo de dar opinião.

A verdade é que estas opiniões, certas ou erradas, justas ou descabeladas, são apenas carateres para preencher uma página cujo título certo seria “Rio rua, eu quero o Rangel”, e, no corpo, bastaria a parte em que escreve “oposição débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do Governo”.

Desta vez, Cavaco disfarçou mal os seus propósitos. Ninguém ligou pevide nem às críticas ao Governo, nem às teorias delirantes sobre conspirações, de tão óbvios os propósitos do artigo.

Sobretudo o tempo das declarações. Não há eleições legislativas próximas, não há qualquer momento especial que possa pôr em causa o Governo (não me parece que seja um apelo à esquerda para que não deixe passar o Orçamento do Estado), mas foi agora que Cavaco se lembrou de criticar o PS, aquilo a que chama partidos de extrema-esquerda, e que se preocupou com a liberdade de expressão. Foi exatamente no momento em que os militantes do PSD estão a decidir se vão sequer dar um sinal para que alguém concorra contra Rui Rio, que aparece Cavaco a atacar com esta violência o atual presidente do PSD e a comunicar daquela forma, digamos, retorcida e sem grandeza o seu apoio a Rangel. 

Eanes e Cavaco são políticos com créditos firmados e que serviram o melhor que souberam o País. Esta falta de compostura institucional dos dois, sobretudo em Cavaco Silva, não é novidade. Porém, impressiona sempre que pessoas que tiveram um papel tão importante na construção da nossa democracia não percebam que há um dever de ponderação e reserva a que os cargos que desempenharam obrigam.

Ex-Presidentes da República a meterem-se em guerras corporativas ou em lutas partidárias internas mancha a instituição Presidência da República, que eles deviam ser os primeiros a preservar.

(Opinião publicada na VISÃO 1493 de 14 de outubro)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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