www.jn.ptjn.pt - 14 out. 01:03

Em tempo de contrarreforma

Em tempo de contrarreforma

Quando um país atrasa sucessivamente as reformas estruturais que necessita, o resultado final será sempre desastroso e doloroso.

As áreas do Estado social e as de soberania, a par das funções empresariais, exigem uma atenção permanente a quem tem responsabilidades de gerir a administração pública de um país.

A apresentação do Orçamento, para o ano de 2022, evidencia um desses momentos em que se vai projetar o que Portugal vai poder fazer.

Sabemos a preocupação com a política de rendimentos. A resposta, contudo, vai ser mais do mesmo porque não podemos mexer na receita. Assim vamos continuar a ter salários muito baixos e desmotivadores para todos. Não podemos esquecer que em Portugal quem ganha 2500 é considerado muito rico. O que se poderá dizer noutros estados-membros da União Europeia em que tal valor é o equivalente ao salário mínimo.

O aumento da despesa pública vai continuar graças ao PRR que vai atenuando a falta de meios.

Ao nível do Estado social as dificuldades começam a vir à tona como o hospital de Setúbal evidenciou. O SNS precisa de um novo modelo de gestão. Se nada se fizer, vamos continuar esta triste confusão. Na segurança social a questão da sustentabilidade das pensões continua adida.

Entretanto o país está a envelhecer e as respostas estão divididas, mal, entre a saúde e a segurança social.

Outros países dão aqui respostas mais sólidas porque compreendem a dimensão do problema. Uma dimensão demográfica onde nos faltam as crianças porque o mercado laboral não se preocupa com a dinâmica das famílias.

Nas funções de soberania basta atentar para a situação em que está a justiça. Em verdadeira fuga para a frente.

Ao nível das funções empresariais do Estado, a situação não é melhor. TAP e CP são duas faces da mesma moeda.

Resultado da presença de um partido-Estado? Ausência de Oposição alternativa?

Sinceramente, parece um pouco de ambos, na medida em que se deve deixar claro as diferenças, entre Esquerda e Direita, na leitura sobre o futuro. O PRR tem sido apresentado como a solução, não significa que seja a solução.

Esta semana, um antigo presidente da República voltou a alertar, com um artigo muito agressivo, para o empobrecimento de Portugal perante alguns parceiros da União Europeia.

A discussão do Orçamento do Estado poderia ser o momento oportuno para se falar dos problemas reais do país. Contudo, será antes o tempo de pedir uns votos à Esquerda com medidas punitivas para a classe média.

Esperemos que esta ausência de estratégia não acabe, outra vez, no regresso da troika. Para já, a Europa está a ser amiga. Até quando?

*Professor universitário de Ciência Política

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