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O lado esquecido das smart cities precisa de mais proteção

O lado esquecido das smart cities precisa de mais proteção

As tecnologias inteligentes sobressaíram com a pandemia. Mas o que o estudo da Deloitte e do Fórum Económico Mundial mostra é que as cidades precisam acautelar os riscos digitais e criar práticas eticamente responsáveis.

Uma boa parte das cidades inteligentes ainda não solidificou as boas práticas para lidar com dados pessoais, nem implementou estratégias para reduzir os custos e a complexidade na instalação das infraestruturas digitais ou tão-pouco faz uma avaliação regular para identificar quais as principais fragilidades dos seus programas de dados abertos. Essas são algumas das conclusões retiradas do estudo "Governando Smart Cities", que a consultora Deloitte e o Fórum Económico Mundial fizeram para ajudar a criar políticas inteligentes e eticamente responsáveis.

As tecnologias inteligentes são cada vez mais um trunfo para promover o desenvolvimento dos centros urbanos. Se já o eram antes da pandemia, mais relevantes se tornaram com a covid-19 a acelerar a sua implementação para responder a desafios tão disruptivos e capazes de colocar em perigo a saúde pública. Mas tão importante como investir em soluções inovadoras é acautelar os riscos de privacidade ou de segurança cibernética. E, nesses domínios, há algum caminho ainda a percorrer.

Lisboa, Milão, Londres, Brasília, Moscovo ou Kampala são algumas das 36 "cidades pioneiras" selecionadas em todos os continentes que entraram nesta pesquisa. A partir da experiência de cada uma, os especialistas compararam e avaliaram as suas políticas, procurando identificar as principais vulnerabilidades. O objetivo passou não só por apresentar um contributo para que cada uma possa melhorar as suas estratégias, mas também para que os seus progressos sirvam de exemplo, podendo até vir a ser replicados a uma escala global. A pesquisa teve, desde logo, como linha condutora os cinco princípios fundamentais que a Aliança Global das Cidades Inteligentes do G20 considera serem os pilares de qualquer smart city (ver caixa).

Equidade, inclusão e impacto social, Privacidade e transparência, Segurança e resiliência, Sustentabilidade operacional e financeira e, finalmente, Abertura e interoperabilidade são os tópicos avaliados no estudo. Os resultados agora revelados no relatório da Deloitte e do Fórum Económico Mundial, mostram que todas as cidades avaliadas têm pelo menos um princípio que deveriam melhorar e a maioria delas precisa trabalhar mais em três dos cinco pilares.

O risco de exclusão

Equidade, inclusão e impacto social são, aliás, conceitos fundamentais que as smart cities só atingem se os seus serviços digitais estiverem ao alcance de todos. Mas o que se constatou é que menos de 20% dos casos analisados incorporam regularmente padrões de acessibilidade nas aquisições de serviços digitais nem tão pouco asseguram que os seus fornecedores façam o mesmo. O que esta lacuna representa - advertem os autores - é um risco de exclusão de grandes camadas da população. Daí a recomendação para seguir a política-modelo projetada pela aliança do G20 com a finalidade de tornar todos os serviços públicos acessíveis a pessoas com deficiência.

Privacidade e transparência, o segundo princípio analisado, é uma questão sensível na era das tecnologias inteligentes e que exige, desde logo, práticas e metodologias consistentes para lidar com os dados pessoais. Esse protocolo é fundamental, e, embora mais de metade das cidades pioneiras tenha estes valores claramente definidos, menos de um quarto das smart cities avaliadas conduzem políticas de impacto da privacidade, conclui o estudo.

A privacidade e a proteção de dados são frequentemente as maiores preocupações do público em cidades inteligentes, alertam os especialistas. O envolvimento das comunidades e a transparência são, por isso, as melhores estratégias para conquistar a confiança das populações, conclui o relatório.

A responsabilidade em segurança cibernética é, em contrapartida, uma das cinco políticas modelos que parece estar bem implementada nas cidades pioneiras, demonstrando que este domínio assume uma alta prioridade nas smart cities. Os casos analisados revelaram não só uma estrutura de governança bem planeada como procedimentos adequados e ainda equipas bem preparadas para lidar com riscos cibernéticos.

Custos e recursos duplicados

A conectividade digital parece um passe de mágica a acontecer na ponta dos dedos, mas ela só é possível graças à infraestrutura física, com e sem fios, que a suporta. Daí a importância em reduzir os custos, a complexidade e os inconvenientes que a instalação da fibra ou dos equipamentos possam provocar. Essa é a lógica da política-modelo "Dig Once" que, em português, poderia ser traduzida em "faça tudo numa única vez".

As grandes vantagens de implementar esta política-modelo passam por antever necessidades futuras e evitar intervenções constantes, que implicam tempo, encargos ou duplicação de recursos. Embora seja uma boa prática reconhecida pela maioria das cidades pioneiras, menos de metade delas tem esses procedimentos formalmente traduzidos em documentos ou regulamentos. Exemplo disso é o facto de apenas 50% das smart cities manterem uma lista de "atividades notificáveis" que lhes permita saber quando ocorrem trabalhos e intervenções na via pública, facilitando, deste modo, o planeamento e a colaboração entre as várias partes envolvidas na instalação das infraestruturas digitais.

Por outro lado, a maioria das cidades pioneiras tem um programa de dados abertos com regras formais e bem definidas. Esse é aliás o caminho apontado pelos autores do estudo para as smart cities responderem aos desafios e às oportunidades que surgem com o aumento dos volumes de dados. Mas, apenas em um terço dos casos analisados, os especialistas encontraram avaliações periódicas das práticas implementadas.

O que também raramente é feito é uma integração direta entre portais de dados abertos e a infraestrutura, tornado a publicação de dados mais dispendiosa e mais difícil de os vincular a serviços que implicam informação confiável e disponível em tempo real. Esse é um dos aspetos que leva os peritos a recomendar às organizações públicas a adesão a uma "plataforma de dados de cidade" para que seja possível partilhar os dados, aumentando o seu valor social e comercial e, em última análise, permitir que as cidades beneficiem de todas as vantagens que uma política de dados abertos pode proporcionar.

Identificadas as lacunas, o estudo aponta para a urgência de os líderes das smart cities incentivarem revisões frequentes das suas políticas para o desenvolvimento das cidades. Só através de uma vigilância permanente será possível fazer o diagnóstico das vulnerabilidades, advertem os especialistas. As boas práticas já estão, inclusive, reconhecidas no roteiro e no programa da Aliança Global das Cidades Inteligentes do G20. E esse é o ponto de partida para as smart cities tomarem medidas concretas em articulação com governos centrais e locais. Tão decisiva é também a colaboração com as entidades privadas, empresas e fornecedores de tecnologia para melhorar e aumentar a capacidade de desenvolver as melhores práticas, conclui, por fim, o relatório da Deloitte e do Fórum Económico Mundial.

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