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E se fosse comigo?

E se fosse comigo?

Todos precisamos de desafios e, muitas vezes, o ritmo acelerado, o próprio stress, são um motor positivo que nos alimenta para respondermos às solicitações. Mas quando eles se sobrepõem, tornando-se intensos e prolongados, podem transformar-se num esgotamento emocional e físico - cansaço, impotência, vazio, tristeza e dificuldade em lidar com o quotidiano e emoções.

Desabamos, não porque somos fracos, mas porque fomos fortes durante tempo demais. Travamos batalhas, vencemos guerras, mantivemos o foco e fomos conseguindo cumprir e, apenas por isso, é-nos imposta, pela sociedade e por quem nos rodeia, a obrigação de não fraquejar. Falhas de memória, falta de concentração, não conseguir dormir, ansiedade, humor instável, começam a imperar. E é importante perceber que um cérebro exausto e agastado não consegue responder de forma positiva. Existem dois caminhos: ou parar, reconhecendo que não se está bem, ou persistir. E é aqui que surgem as dificuldades. Isto porque existe um forte estigma à volta do esgotamento e depressão. As doenças relacionadas com a saúde mental são, muitas vezes, interpretadas por quem não as vive como "fragilidade", "fingimento", "fraqueza", "frescura", "pouca força de vontade", "falta de atitude", "insegurança", "pouca vontade de trabalhar", "chamar a atenção", "medo" ou "cobardia". Só consigo perceber tais leituras em pessoas pouco informadas e esclarecidas. Mas, infelizmente, este tipo de comentários surge, por vezes, de pessoas inteligentes e cultas. O esgotamento, a depressão e outros transtornos psicológicos, apesar de atingirem milhões no Mundo, ainda são tabu. Sentir tal rótulo tem inevitavelmente reflexos na aceitação da doença, na procura de ajuda e na cura. A resistência em procurar ajuda pode acontecer devido a estes "julgamentos": ninguém gosta de ser olhado como "incapaz", "frágil" ou "fraco". Um dos grandes obstáculos é, assim, o preconceito e o estigma, sendo estes, por vezes, mais nocivos do que a doença. O esgotamento físico/emocional e a depressão são um dos principais motivos para as baixas médicas e, consequente, afastamento do trabalho. Pode acontecer com qualquer um, comigo, consigo. Portanto, antes de julgar, pergunte primeiro: "e se fosse comigo?".

*Juíza de Direito

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