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A minha árvore

A minha árvore

Quando falo de árvores, falo da minha árvore. Quando as crianças até aos seis anos desenham uma árvore, desenham a minha árvore. E quando a natureza surgiu nos seis dias bíblicos, está escrito, surgiu esperançosa de um dia gerar a minha árvore. Agora que a minha árvore existe e cresceu e supercentenou em três andares de altura, a natureza sofre de beleza, triste por não ser capaz de mais.

Isto da minha árvore não é lirismo. Sempre a conheci assim, frondosa e extremamente árvore, embora até pudesse ser arbusto, que permaneceria completamente minha. E não é como o rio da aldeia de Alberto Caeiro porque a minha árvore, todos concordam, é muito maior do que o Tejo.

Espantei o lirismo quando, há uns tempos, enviei fotografias a Miguel Porto, botânico-génio da Sociedade Portuguesa de Botânica, que me respondeu por mail atestando o que eu intuía: trata-se de uma magnólia rara. Miguel Porto nunca viu tal espécie em Portugal, nem tão antiga e bela e muitíssimo viva. Arrisco-me a traí-lo, já que ele não a viu em pessoa (decidi que uma árvore se vê sempre em pessoa), mas parece que se trata de uma Magnolia salicifolia. Essa mesma, da qual poucos ouviram falar por cá.

É originária do Japão, desconhece-se em que antigos navios chegou a Portugal, ao Porto, e como uma única semente nipónica, coisa de nada, caiu na terra que viria a ser o pátio do prédio onde cresci - e aí singrou. Assim são os milagres, sementes inventadas em porões desconhecidos.

Foi parar ao Monte dos Burgos, Carvalhido, parte suja da cidade em que o cimento cresceu como trepadeira, cobrindo de cinzento as ruas, as casas, as pessoas; o mesmo cinza, qual pós-bombardeamento, que arrasa esta e outras árvores.

Mas a magnólia do meu prédio é verde na Primavera, verde a cair no mais verde durante o Verão, e em Fevereiro corrige a nudez com floração branca, branca de dor de olhos, branca de a natureza ter desistido de fazer melhor.

Só nós, os do prédio, a conhecemos. Só nós a levamos no bolso para longe do pátio quando estamos fora; como eu, com ela no bolso em Lisboa no lugar dos Jacarandás.

Em Fevereiro próximo, quando a magnólia estiver florida, rectifico o erro: num sábado, das 10h às 18h, abro os portões da casa onde já não vivo e convido toda a gente a entrar. E depois me dirão se a magnólia escondida, minha e de uns quantos mais, não é de facto a árvore que as crianças desenham, a árvore que imaginamos quando fechamos os olhos - a árvore que todos gostaríamos de levar no bolso.

*Escritor

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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