visao.sapo.ptapfigueiredo - 13 out. 18:00

Visão | Um banho de realidade e o País que queremos ser

Visão | Um banho de realidade e o País que queremos ser

Veja-se aquela que foi vendida como a principal bandeira do OE2022: o desdobramento dos escalões do IRS em Portugal e uma descida nas taxas do imposto para a classe média, que representa, afinal, uma poupança de 150 milhões de euros para as famílias. Falamos de 6% do orçamento da Defesa, de menos de um décimo do que o Governo vai injetar na CP para colmatar a dívida ou sete vezes menos do que gastámos na TAP este ano, para distribuir por 1,5 milhões de famílias. Melhor do que nada, é certo, mas são trocos. Microscópicos, quase irrelevantes, servem apenas o propósito do marketing

Todos os anos, por esta altura, há um choque frontal com a realidade. Contas feitas ao “deve e haver” do Estado, num exercício de cerca de 400 páginas, mais coisa menos coisa, fica bem plasmada para quem quiser ver a dimensão do nosso infortúnio: somos pobres, endividados, pouco competitivos e parecemos eternamente condenados a este voo baixinho. O banho de realidade só não é mais doloroso porque não chega a todos: a esmagadora maioria da população fica-se pelos grandes números dos Orçamentos do Estado, uns soundbites lançados convenientemente e as medidas que lhes afetam diretamente a carteira. O resto, a big picture, que é difícil de endereçar e de digerir mas é a mais importante de pensar, fica a pairar lá atrás como um fantasma que, ano após ano, década após década, se vai tentando ignorar. 

O que acontece no Estado acontece um pouco por todo o lado: também nas empresas e nas famílias. Fazer orçamentos é gerir a arte do possível com os recursos existentes, já se sabe. É comum olhar-se a árvore anual e conjuntural e não a floresta estrutural, é humano concentrarmo-nos nos problemas imediatos e não pensarmos nos do futuro, sobretudo quando pensar no futuro dói, exige medidas complexas e pouco populares e implica consensos que parecem impossíveis de alcançar.

Aqui temos, pois, mais um destes exercícios do possível, um composto Orçamento do Estado com contas a bater certo no final, défice controlado nos 3,2%, umas concessões para garantir a aprovação e a habitual panóplia de medidas que são vendidas como grandes coisas, mas que, bem espremidas, valem muito pouco. .

Claro que Portugal está de novo, como Centeno, aliás, veio sublinhar, à beira da emergência orçamental. Claro que o Governo está entre a espada e a parede, num equilibrismo intrincado de manter contas públicas sustentáveis e défices baixos, e atender à emergência social e à crise económica ditada pela pandemia. Claro que o PS, sem maioria no Parlamento, tem de agradar aos interesses à esquerda que batalham por mais despesa e uma visão que passa por um papel preponderante do Estado como motor permanente da economia. E claro que vêm aí fundos estruturais que vão permitir tapar alguns buracos e fazer algumas das reformas que ficaram para trás nestes anos de austeridade assumida (PSD) e depois de austeridade disfarçada (PS). 

Tudo isto é claro, só não é claro que País queremos construir e conseguimos ter adiante. Com uma dívida monstruosa (135% do PIB, a terceira mais alta da UE) que nos pesa para baixo, com quase dois milhões de pobres e mais de 300 mil crianças em risco de pobreza, com mão de obra pouco qualificada e salários tão baixos que emperram o fundamental motor económico do consumo, com uma burocracia asfixiante, com uma justiça lenta e ineficiente, com perspetivas de crescimentos anémicos e ultrapassagens dos países de leste. Com tudo isto, para onde vamos, afinal? Para um lugar auspicioso não é de certeza.

Lamento o incómodo, o mau jeito, o pessimismo. Malvada insistência nos factos, a tendência para olhar para os problemas. Talvez seja melhor aproveitar-se o sol de outubro e beber-se um drink de fim de tarde…

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