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Aqueles que desejam a morte da TAP

Aqueles que desejam a morte da TAP

Da TAP sai muita coisa: todos os anos, saem mais de 100 milhões para a segurança social (a falência da TAP iria criar um gigantesco buraco nas contas da Segurança Social); saem mais de 100 milhões para o OE através do IRS; saem uns milhares de milhõ

Volta e meia a mensagem aparece, em diversas formas e cambiantes: dizem-nos que temos de deixar cair a TAP. Ou por proclamações sérias e taxativas, ou dentro do género ficção científica de horror, com buracos negros e zombies à mistura. Este último foi o caso do artigo de Susana Peralta no passado dia 1.

Nesse artigo, a TAP é metida no casting das “empresas zombie”. Diz a autora: “Temos de distinguir empresas com problemas pontuais das que vivem cronicamente de sugar sangue dos vivos”.

Estamos então perante uma empresa que recebe constantemente ajudas públicas, certo? Errado. Em mais de 20 anos, zero. Entrou muito dinheiro vindo da TAP para os cofres do Estado, mas já lá iremos.

É verdade que o Governo injetou na altura 180 milhões de contos na TAP, com o PESEF (Plano Estratégico de Saneamento Económico e Financeiro) de 1994/97. Pelo meio houve uma razia de emprego e direitos. No argumento da autora não consta um detalhe: tudo isto foi para depois privatizar, e vender à Swissair (por muito menos). Ora, a venda não aconteceu, a Swissair faliu e a TAP continuou a operar.

Diz a autora que “no século XXI contam-se pelos dedos de uma mão os anos de resultados positivos”. Ora, essas contas referem-se à TAP SGPS, ao Grupo TAP. Já na companhia aérea TAP SA, os resultados positivos foram mais frequentes. A principal razão é simples: chama-se Manutenção Brasil, a negociata ruinosa com a ex-VEM, onde a TAP perde, a cada ano, largas dezenas de milhões de euros.

O PCP e os trabalhadores da TAP sempre denunciaram e combateram esta negociata, mas a autora optou por cortar esta parte do filme. Mas o que as contas da TAP mostram é que o valor das perdas totais com a negociata é superior ao dos capitais próprios negativos e dívida que refere!

A autora aponta para o “buraco negro": “500 milhões de capitais próprios negativos e uma dívida superior a mil milhões”. Provavelmente, a autora conhece muitas companhias aéreas onde os aviões são todos comprados a pronto. Eu não conheço nenhuma.

Na verdade, na generalidade do sector, os aviões (e não só) são comprados sob diferentes formas de crédito, umas vezes contando para a dívida, outras não. Mas há um outro facto: é que o dono da TAP, o Estado português, ganha muito com a sua existência – mas está impedido de a capitalizar.

Diz a autora: “Veio a pandemia”, e logo salta para o acordo com o Governo. Mas, pelo meio, tivemos a empresa parada, e os acionistas privados sem dinheiro para a salvar. Já agora: aqui e em todo o mundo.

Os EUA de Trump entregaram dezenas de milhares de milhões de dólares em apoios às companhias de aviação. A Alemanha colocou 12 mil milhões na Lufthansa. Até a Ryanair recebeu milhares de milhões de euros em apoios. Mas em Portugal, supostamente a solução era colocar o sector na mão das empresas estrangeiras – as tais que foram salvas pelos governos!

E já agora, um “buraco negro” não é um buraco. É um corpo celeste com tanta força gravitacional que atrai tudo para si, incluindo a luz. Ora, da TAP sai muita coisa: todos os anos, saem mais de 100 milhões para a segurança social portuguesa (e a falência da TAP iria criar um gigantesco buraco nas contas da Segurança Social).

Todos os anos saem mais de 100 milhões para o OE através do IRS; saem uns milhares de milhões para as exportações nacionais; e através da ANA, para a qual a TAP significa mais de metade das receitas, saía (até à privatização) forte investimento nos aeroportos nacionais.

Esta gestão, estas opções estratégicas e políticas, impostas à TAP durante décadas, tiveram a denúncia do PCP. No meio de tantos zombies, aliens, buracos negros e asteróides, a TAP chegou até hoje. E vai fazer falta ao país.

Por coincidência, a bordo da TAP este mês, da programação no longo curso consta um filme cujo título é sugestivo: Aqueles que me desejam a morte. No cinema, gostos não se discutem. Mas nas opções políticas, é preciso ter cuidado com as histórias mal contadas.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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