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Jorge Sampaio (1939-2021)

Jorge Sampaio (1939-2021)

No final da semana passada deixou-nos o Presidente Jorge Sampaio. Político de um elevado perfil intelectual, homem de Estado foi e soube ser o Presidente de todos os portugueses.

Tive o privilégio de conviver e de conhecer o Dr. Jorge Sampaio logo num dos seus momentos mais interessantes e ativos, quando cheguei ao Parlamento no distante ano de 1985, como Presidente do Grupo Parlamentar e, mais tarde, como Secretário-Geral do PS.

Ao ouvir os vários comentários sobre a sua ação política e o seu perfil de homem inquieto lembro, com emoção, quando regressei ao Parlamento, a sua preocupação com a minha recuperação, após o meu desastre de setembro de 1987.

Jorge Sampaio era mesmo assim. Intenso na relação independentemente de quem estava do outro lado. Aqui era eu ainda um novato na Assembleia da República.

Voltamos a encontrar-nos mais tarde, durante o Governo Durão Barroso, quando visitou o TecMaia - o Parque de Ciência e Tecnologia e mostrava a sua simpatia ao rever-me nestas funções. Lembro-me ainda da sua reação irónica quando lhe mostrei uma tecnologia da televisão com futuro. "Já não é para mim".

Depois teve a amabilidade de fechar o seu mandato, no Porto, participando, a meu convite, no X aniversário do Clube Via Norte e falando sobre a importância do equilíbrio regional e das virtudes do Poder Local. Jorge Sampaio era espontâneo a fazer pontes. Adorava um bom debate com contraditório e pessoas com ideias próprias.

Como provedor da Misericórdia do Porto lembro-me quando me telefonou a desafiar para o apoio aos estudantes sírios. A forma contagiante como o fez levou-me a aderir logo de uma forma entusiasmante à sua ideia. Estivemos depois juntos várias vezes e, hoje, graças ao seu empenho, temos connosco um jovem sírio que acabou por ficar em Portugal.

A maneira como sabia envolver as pessoas, a forma como transformava os problemas em questões de missão eram marcas da sua atuação às quais não se conseguia dizer não.

Jorge Sampaio pertencia a uma geração que sabia a importância da liberdade e o facto de que a política devia, obedecendo à velha máxima de Max Weber, ser uma vocação e não uma profissão.

O seu legado deve ser divulgado nas escolas portuguesas junto dos mais jovens como um exemplo de cidadania e de memória viva.

Como ele costumava dizer "não há economia, nem mercado, nem política, nem democracia sem esse cimento de base, a confiança. Não há paz duradoura se a desconfiança minar as relações entre comunidades, povos e nações, se o pacto social for rompido".

Até sempre!

Professor universitário de Ciência Política

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