visao.sapo.ptsvicente - 15 set 18:15

Visão | Vamos deixar morrer as mulheres afegãs?

Visão | Vamos deixar morrer as mulheres afegãs?

De repente, começou o campeonato de futebol e por cá o espaço mediático voltou-se para as eleições autárquicas. A agenda política e pública mudou e tudo se diluiu na espuma dos dias. O Afeganistão ficou lá longe no esquecimento e com ele centenas, milhares de pessoas com sentenças de morte, abandonadas à sua sorte

Durante uma semana, o mundo parou para olhar com horror a chegada dos talibãs a Cabul e o retrocesso dum país, no qual todas as grandes potências se imiscuíram em nome da liberdade e dos direitos humanos, mas que acabaram por abandonar à sua sorte.

Durante dias e dias, as imagens de gente que se espezinhava na tentativa de chegar ao aeroporto, numa esperança de fuga, fizeram-nos estremecer. Corpos que caíam da fuselagem dum avião que levantava voo, multidões que corriam na pista tentando alcançar uma porta já fechada, relatos de militares heróis que acolhiam crianças “atiradas” por cima de vedações no desespero de que, pelo menos estas tivessem um futuro… a tudo assistimos com um arrepio de horror.

Não houve bloco noticioso, jornal, debate, que não tivesse tido, naquele espaço de tempo, o Afeganistão como cenário de fundo.

Foram feitas promessas, analisados cenários, esgrimidos argumentos.

Porém, de repente, começou o campeonato de futebol e por cá o espaço mediático voltou-se para as eleições autárquicas. A agenda política e pública mudou e tudo se diluiu na espuma dos dias e no afã dos acontecimentos novos.

Sabem que o seu destino é a morte, caso não haja uma intervenção externa e reconhecem que os governos ocidentais esgotaram a capacidade de ação no território.
A única esperança são os movimentos da sociedade civil, como por exemplo a da União Internacional de Juízes que veio exortar os países a retirar as magistradas do Afeganistão

O Afeganistão ficou lá longe no esquecimento e com ele centenas, milhares de pessoas com sentenças de morte, abandonadas à sua sorte.

Nem o desaparecimento chorado desse grande humanista que foi Jorge Sampaio, que, duma forma sempre discreta agia em prol dos direitos fundamentais e que, malgrado a sua já frágil saúde, iniciara de imediato um projeto para alargar a Plataforma de Ajuda aos Estudantes aos jovens, sobretudo às jovens afegãs, inverteu o foco da preocupação e da ação relativamente ao drama destas pessoas.

A instauração do regime talibã que lança todo um povo martirizado por década de guerra, de novo no horror dum regime desumano, nunca aconteceu!

Foi apenas um episódio duma série de ficção!

Importante agora é saber qual o clube que conquista os três pontos para o campeonato, a estreia de Ronaldo novamente no Manchester e as consequências das autárquicas no futuro político do país.

 Não nego a importância sobretudo desta última, mas choca verificar a forma leviana com que sossegamos as consciências!

Salvo as exceções a que já estamos habituados, toda a comunidade internacional se comprometeu a acolher todos os que conseguissem sair do país e solicitassem refúgio.

É louvável a intenção, mas acaba por ser um pouco como a história daquele governador africano que prometia a liberdade a todo o criminoso que conseguisse atravessar a nado um rio pejado de jacarés.

Como sempre as primeiras e as maiores vítimas de todos os conflitos são as mulheres.

Neste momento, e apenas para citar um exemplo, a Organização de Empoderamento de Mulheres e Meninas (WACEO, na sigla inglesa), constituída quase cem por cento por mulheres, entre as quais se encontra uma antiga ministra afegã, e que foi uma das organizações que mais lutou pelos direitos das mulheres no Afeganistão, continua em fuga diária de casa para casa, acossada pelas brigadas talibãs que as procuram.

Sabem que o seu destino é a morte, caso não haja uma intervenção externa e reconhecem que os governos ocidentais esgotaram a capacidade de ação no território.

A única esperança são os movimentos da sociedade civil, como por exemplo a da União Internacional de Juízes que veio exortar os países a retirar as magistradas do Afeganistão.

Mas o problema reside precisamente aí: os governos estão manietados pela política e pela diplomacia, impossibilitados de, sem incorrerem numa situação insustentável de conflito aberto com a força no poder em Cabul, levarem a cabo operações de extração (não é uma expressão bonita, mas é o nome técnico do processo).

É por isso que se torna urgente a ação de Organizações Não Governamentais, apoiadas pelos governos de forma discreta, que possam chegar onde estes últimos já não conseguem agir.

Cada dia que passa é um dia a menos de vida, sobretudo para estas mulheres e crianças.

O Ocidente não pode, pura e simplesmente, lavar as mãos depois de não ter acautelado a existência de estruturas que dessem garantias da tal liberdade e democracia que usaram como argumento para as suas ações.

A política, e sobretudo a política internacional, tem que deixar de ser um jogo de xadrez, estratégia e economia. A política tem que ser uma questão de direitos e deveres das pessoas e para as pessoas.

Não se trata de utopia mas sim duma realidade caso queiramos ter um futuro.

E as mulheres, todos nós o sabemos, são o fermento de qualquer futuro.

Vamos deixá-las morrer?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

NewsItem [
pubDate=2021-09-15 17:15:46.0
, url=https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/igualmente-desiguais/2021-09-15-vamos-deixar-morrer-as-mulheres-afegas/
, host=visao.sapo.pt
, wordCount=794
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_09_15_1379344722_visao-vamos-deixar-morrer-as-mulheres-afegas
, topics=[afeganistão, manuela niza ribeiro, opinião, mulheres, igualmente desiguais]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]