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Visão | Homem do Leme: O grande dilúvio

Visão | Homem do Leme: O grande dilúvio

Não estou demasiado preocupado com o grande dilúvio, eu moro no segundo andar. Quando se der o degelo, quando o nível das águas subir, o vizinho de baixo vai ver o seu magnífico apartamento, cheio de peças de porcelana e tapetes árabes, ficar submerso

. Espero bem que o pavimento flutuante flutue e se torne em jangada para viver nas imediações no teto. Caso contrário, coitado do vizinho, ninguém merece tal coisa… nem mesmo ele.

Passei anos em reuniões de condomínio a ouvi-lo argumentar que era justo fazer-lhe um desconto na quota, pois, vivendo ele no primeiro andar, quase nunca usava o elevador, pelo que não lhe deviam ser imputadas despesas. Contra-argumentei. Mas mais tarde cheguei a invejá-lo por ter que subir tão pouco quando o elevador se avariou após as primeiras inundações. Disparate meu e fraco consolo o dele.

Eu já sabia o que aí vinha. Leio as notícias da camada de ozono, do aquecimento global e do fim do mundo em cuecas. Por isso é que decidi: não me importo de pagar um pouco mais de condomínio, de contribuir para as obras do elevador, mas prefiro morar um pouco mais cá para cima, onde as águas não chegam.

Quando foram as primeiras inundações, lembro-me do vizinho do primeiro andar relatar a forma desesperada com o vizinho do rés-do-chão tentava com a ajuda do balde livrar-se da água que invadia impiedosamente alcatifa. Terá pensado, ainda bem que escolhi viver no primeiro andar, onde a água ainda não chega, apesar de ter de pagar parte da manutenção do elevador. Devia ter pensado mais alto.

Agora, sempre que se anuncia novo degelo, ele prepara-se para o pior, porque nunca se sabe até onde sobem as águas. E o próximo será ele. Lá em casa dormem todos de escafandro, com boias laranja a rodear a cintura. O vizinho gastou uma pipa de massa a calcetar portas e janelas, pensa que assim a água não descobre como entrar, e encomendou dezenas de botijas de oxigénio, para que quando ficarem submersos possam viver como se estivessem num submarino.

Eu cá não me preocupo demasiado com aquecimento global, a água ainda demora muito a chegar cá a cima. Sempre que se anuncia novo degelo, pomos colete e insuflamos o bote. Talvez consigamos sair de bote, como outrora em Veneza, as cidades com água tornam-se mais bonitas. Claro que a paisagem do vizinho de baixo (caso o seu plano de calafetação se revele eficaz) será sempre mais impressionante. Deve sentir-se em pleno oceanário, com os peixes e os escombros a rodear-lhes as janelas. Aliás, até podíamos fazer uma sociedade para a pescaria: ele dá-me um toque quando vê um peixe graúdo a passar e eu lanço anzol. Depois dividíamos o peixe por todos. Vou propor isso na reunião de condomínio, se o vizinho de cima me deixar ir ao terraço apanhar sol. Até lá vou fazer por me manter seco.

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