www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 22 jul 22:41

Vieira do Minho, o Turismo e as Invasões Francesas

Vieira do Minho, o Turismo e as Invasões Francesas

Vieira do Minho assumiu o epíteto de Capital do Turismo Rural. É atualmente o Concelho de Portugal que mais camas qualificadas de turismo possui em Turismo de Espaço Rural e regista um acréscimo significativo de camas qualificadas no Turismo Local. Tem realizado ao longo de vários anos, de forma sistemática e genuína, o programa Sentir Vieira, numa estratégia de promover o turismo e de combater a sazonalidade turística, garantindo iniciativas com interesse turístico ao longo dos 12 meses do ano.

O que desperta ainda maior interesse é o de saber que Vieira do Minho, com a inauguração recente de mais dois Trilhos, passará a oferecer 130 km de caminhadas. Fantástica oferta de Trilhos, estudados, marcados, limpos e mantidos em excelentes condições, atravessando montanhas, aldeias, lugares, possibilitando o contacto com a realidade e vivência local. Cada trilho corresponde a uma agradável surpresa, um conjunto de experiências únicas e enriquecedoras. Passar a ponte da Misarela ou chegar ao Telefe, que é o ponto mais alto da Cabreira, possibilita uma paisagem sem igual. Todo o Gerês ali aos pés, o rio Cávado lá em baixo, as montanhas desenvolvem-se no horizonte entremeadas com os bosques e floresta, com a  vegetação alindando e retocando um quadro de pintura imaginário, onde, lá ao fundo, não faltam os garranos criados na natureza. Estamos num parque natural único, sem ruído, os sons que se ouvem são o ar os pássaros a água a correr pelos ribeiros. Que belo quadro… em tela nunca pintada em que somos envolvidos.
Quando ouvimos falar da Ponte do Diabo, a outra designação da Ponte da Misarela, longe se vai a ideia de algo mal ou maldoso, pois Vieira do Minho eleva-nos e gera uma grande empatia. A população é muito amistosa, hospitaleira, simpática e de verbo fácil. Porquê aquela designação para a Ponte da Misarela?
Afinal, não é nada mais do que uma ponte enquadrada na paisagem de montanha, que liga as freguesias de Ruivães, em Vieira do Minho, à de Ferral, no concelho de Montalegre, e muito próxima de Pitões da Júnias. O Rio Rabagão, que refresca as duas margens, passa por debaixo do seu arco de arquitetura medieval com um vão de 13 metros de extensão. Aquela obra de arte foi, e bem, classificada de Interesse Público em 1958, já lá vão 63 anos. Poderemos dizer agora que é também de Interesse Turístico e naturalmente de Interesse Arquitetónico. A ponte está assente sobre penedos que a natureza ali colocou, como que encaixados para que o seu belo arco pudesse espreguiçar-se todas as manhãs. Um autêntico achado de beleza turística sem igual.
Mas outra história desperta o interesse e enriquece a cultura de quem a visita. Foi exatamente naquele local que, em 16 de maio de 1809, um pequeno exército de Soult, ameaçado pelas tropas do General Wellesley, foi derrotado. Estava em fuga a partir da cidade do Porto, com o objetivo de seguir para Espanha através dos caminhos existentes na Serra da Cabreira, atravessando Vieira do Minho em direção a Montalegre. Quando se encontravam a evoluir para a Ponte da Misarela e como refere Carlos de Azeredo no seu livro  “Aqui não passaram – O erro fatal de Napoleão”, retratando aquela batalha:
“Ao ouvir-se na retaguarda o troar da artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas, caíram no pânico. Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros (…) na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação, lançavam fora armas e equipamento; os pobres animais famintos ou desferrados eram abatidos ou atirados pelas ravinas, (…) muitos homens na ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão.”
Resulta assim um facto histórico de grande importância para o futuro de Portugal. Importa por isso olhar aquele território com a paixão de se ser português e de na oportunidade estarmos envolvidos numa luta que significava a independência de Portugal.
Curiosamente, aquela batalha foi ainda marcada até aos dias de hoje com uma cantiga popular muito expressiva:
“Chorai, meninas de França,
Chorai por vossos maridos,
Na ponte da Misarela
Eram mais mortos que vivos!”
Muitas outras histórias, mais virtuosas, estão associadas à Ponte da Misarela, ligadas a várias crenças pagãs e lendas centenárias. Para se conhecerem bem e poder desfrutar delas, importa percorrer o Trilho de PR8 VRM – As Pontes da 2ª Invasão Francesa que liga as Pontes de Rês (Ponte Velha), de Ponte do Saltadouro (submersa) e a Ponte da Misarela. São 11 km que se percorrem em 3 horas de constante surpresa e de contacto com lugares, vilas (Ruivães, Vale, Frades) e com a Albufeira de Salamonde. Calcorreando caminho antigo, romano, integrado no traçado Via Romana XVII que fazia ligação entre Bracara Augusta (Braga) e Aquae Flaviae (Chaves). O “Caminho de Ruivães” foi classificado em 2020 como de Interesse Público e transporta-nos no tempo para a época romana.
Note-se que foram ainda recentemente inaugurados mais alguns trilhos, PR7 VRM - Da Sra. da Lapa ao Castro de Anissó, PR8 VRM - As Pontes da 2ª Invasão Francesa, PR9 VRM - Nascente do Rio Ave e PR10 VRM - Os Carvalhos do Ermal, elevando para 10 os trilhos de grande interesse turístico sobretudo para quem faz do “walking e do hiking” um prazer no contacto com a natureza.

Nota de Redação: Artigo de opinião repetido por erro no título na edição passada, pedimos desculpas ao autor e aos nossos leitores.
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