observador.ptObservador - 23 jul 00:05

Vou viver para o campo

Vou viver para o campo

Resta-me uma vã esperança que não vai acontecer: se forem muitos, talvez seja um programa de repovoação do interior como nunca existiu. E até de desenvolvimento.

A pandemia trouxe uma série de movimentos cidade-campo interessantes. E trouxe confinamentos no campo, por exemplo. E trouxe também muito trabalho remoto. Dito isto, qualquer colaborador de qualquer empresa é candidato a fixar-se, assim o trabalho o permita, no dito campo.

Não obstante, convém saber que passar um confinamento, quando tudo está fechado, numa casa escusa é um programa interessante, libertador, com ar puro e uns passeios não permitidos nas grandes metrópoles. Porém, convém igualmente ter a noção de que o homem não irá viver o resto dos seus dias confinado – pelo menos espera-se que não – pelo que será importante saber da adaptação destes novos migrantes às condições do interior.

Para começar acham graça a vilas pequenas, de duas ruas largas, paralelas, com meia dúzia de cafés, um ou dois balcões bancários e uma estação de correios. Uma papelaria, um talho, uma ou duas farmácias, um supermercado de uma cadeia de retalho alimentar moderno e já está.

A restante oferta não existe. Nem cultural, nem lojas, nem mesmo restaurantes por onde se possa variar. Não há livrarias, moda, bancas de jornais e revistas. E aqueles que poderíamos querer espreitar nem tão pouco chegam ali. Não há um médico. Há dois táxis e nada de plataformas de entrega de comida em casa ou quejandos. Não há múpis ou neons. Não há gente nas ruas. O sábado de manhã é o grande dia em que se circula. Um evento. Às vezes à sexta-feira também, por causa da feira onde se pode comprar contrafação. Outro evento. A rede não funciona como se esperaria e tem falhas, muitas falhas.

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Será que estes novos migrantes gostam de ouvir o galo cantar todas as manhãs várias vezes? Ou de ouvir o sino da igreja de 15 em 15 minutos com pelo menos dois “tlim”. Sim porque às cinco ou seis da manhã são repetições de cinco ou seis badaladas fortíssimas. Será que gostam de estar sozinhos, sem amigos? Será que gostam de casas termicamente débeis ou de nove meses de inverno e três meses de inferno? Claro que acham graça ao casario branco que rodopia à volta das duas ruas paralelas e largas que tomam conta da vila, casario esse que serpenteia ora até ao castelo, ora até ao final da vila, tudo com fronteiras bem ao alcance da visão.

Mas e quando a rotina dos dias iguais entra em força? Está tudo dito. Está tudo visto.

E mais, do mais ríspido inverno desconheciam a força do vento e da chuva.

Não sonhavam com as trovoadas que até julgavam não existir.

Não sabiam que os dias frios eram mesmo frios. E que o calor era uma canícula.

Nem tão pouco sabiam que esta coisa de encher o carro de gasóleo a menos 30 cêntimos o litro, ali ao lado em Espanha, é uma maravilha. E é. Porém, não dão uso suficiente ao carro porque realmente não há onde ir. E as voltas são à volta, literalmente, das duas ruas paralelas, apenas para ver a pouca gente que passa.

Enquanto as casas se vão vendendo e comprando e se fazem obras, vou-me perguntando se sabem ao que vão, se estão avisados, se já viram e sentiram tudo isto? Porque, na maior parte das vezes, estou em crer que terão um ano – máximo dos máximos – para achar graça. E, ao segundo ano, ou talvez um conjunto de meses, estão de novo caídos na cidade à procura de gente, de tecnologia e de um arquétipo qualquer de cosmopolitismo.

Disseram-me uma vez que não me preocupasse com estes pensamentos porque quem para lá vai volta à cidade. Só fica e/ou vai mesmo quem gosta a sério e sublima a pachorrenta passagem dos dias. Alemães reformados. Nórdicos reformados. Os ingleses não se reformam ali porque não aguentam o barulho do silêncio – não há pubs e o sucedâneo que há não é sequer comparável, a não ser na quantidade de álcool.

Mas tudo bem, eu não me preocupo. Apenas me pergunto se os artigos cor-de-rosa que fazem a apologia do campo e se os jornalistas que os escrevem alguma vez sentiram o campo em toda a sua expressão e tempo necessário. Não sentiram. Quem não sente, não sabe. E lá vão os peregrinos campestres todos como se se tratasse do melhor que há na vida.

Porém, tal como quem vai não está preparado para ir, e volta, quem lá está também não está preparado para receber ninguém. Não há qualquer cola. Em nada ou quase nada há intersecção entre quem vai e quem está. Vais para o campo? Melhor pensar mesmo no assunto e experimentar antes de mudar de vida.

Receba um alerta sempre que José Crespo de Carvalho publique um novo artigo.

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