www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 22 jul 20:20

O prr vai garantir que nada mudará

O prr vai garantir que nada mudará

O Presidente da República manifestou recentemente a sua insatisfação quanto ao PRR – Programa de Resiliência e Recuperação e à provável incapacidade deste em promover o choque competitivo de que o país tanto necessita. Também surpreendeu ao apelar à resignação, afirmando ser “o que temos”.

A pergunta que se nos coloca, com a maior estupefação, é: só agora Marcelo Rebelo de Sousa percebeu que o PRR pouco ou nada vai servir? Quando os parceiros sociais, economistas de reconhecida competência ou outras instituições assinalavam que o PRR apenas iria satisfazer as necessidades públicas, muitas das quais numa lógica de pura desorçamentação futura de despesa corrente, ou, quando muito, tinha como objetivo confirmar compromissos com grandes projetos de duvidosa eficácia, como o hidrogénio verde ou outras fantasias, o que fez o Presidente da República? Simplesmente apoiou, encorajou e até comentou as virtualidades do programa para a recuperação do país no pós-COVID!
Então o que o fez mudar de opinião? Uma alteração tática na sua relação com o Governo ou um assomo de lucidez, que apenas peca por muito tardia. Talvez ambas, para supremo desespero dos portugueses, que se veem cada vez mais como instrumentalizados e tratados de forma infantil, cada vez esperando menos de quem os lidera, cada vez desconfiando mais de quem deveria cuidar do interesse público acima de tudo.
Já o disse aqui e repito: o PRR vai ser um enorme “flop”, pois as expetativas criadas não vão ser cumpridas, a não ser para os muito poucos, em domínios pré-marcados desde a sua génese, que, convenientemente, ninguém sequer questionou, a começar pela comunicação social, entretida entre a “novela” em que transformaram a pandemia e os escândalos públicos das acusações a José Sócrates, Joe Berardo e Luís Filipe Vieira, destinados a distrair dos reais problemas do país, que não tardarão a “rebentar-nos na mão”.
O PRR que foi aprovado em Bruxelas, para grande gáudio de António Costa e condescendência do Presidente da República, vai garantir que nada irá mudar, perpetuar um “status quo” que nos tem feito mais e mais pobres, no convencimento de que progredimos. O PRR que o Partido Socialista e este Governo apresentaram e que a Europa nos esmolou vai servir para manter o Estado que temos e até fazê-lo crescer, tapar grosseiramente as mazelas que a COVID nos está a deixar, mascarando o desemprego, mas que nada vai fazer para, de forma estrutural, mudar o país, torná-lo mais competitivo, mais atrativo ao investimento, nacional e estrangeiro, mais capaz de dar futuro às gerações mais jovens, que vão continuar a emigrar em massa, procurando outros destinos, países mais sérios, que lhes possam garantir melhores empregos e mais estabilidade.
À medida que a pandemia abrandar e retomarmos um padrão de vida mais próximo da normalidade, algo que assusta o Governo, encantado por ter podido exercer o Poder suspendendo a democracia e com a submissão da sociedade civil, vamos começando a compreender com maior clareza que o país que nos resta está em bem pior estado que imaginamos, com a economia de rastos e com escassos recursos para poder recuperar, pois o comum dos cidadãos, em especial a larga maioria que não tem emprego público, não beneficiará em nada dos fundos comunitários do PRR, pois não vão permitir o aparecimento de novas empresas, não irão salvar muitas que poderiam ter viabilidade e não vão ajudar nenhuma delas a crescer, pois existe no país, na mentalidade reinante que a extrema--esquerda impôs, um ódio feroz às grandes organizações e a todos aqueles que criam riqueza e emprego.
O país não crescerá enquanto as empresas não crescerem e estas só crescerão se tiverem um contexto amigável para o efeito, algo que, seja pela ideologia seja pelo peso do sistema fiscal, não existe em Portugal, sendo de prever que a tendência se irá agravar e não aliviar. Enquanto o PS, para ser Governo e aprovar orçamentos, necessitar da esquerda mais radical e obtusa da Europa, que no nosso país é tratada com a deferência da “passadeira vermelha”, ao que iremos assistir é à rigidificação da lei laboral, ao aumento incessante da burocracia (basta ver o que se prepara ao nível dos regulamentos do PRR) para justificar o aumento incessante da Administração Pública e dos seus dependentes, e ao crescimento da carga fiscal, que qualquer dia ultrapassa a da Dinamarca, mas, em contrapartida, nos oferecer serviços públicos abaixo do nível de Marrocos, sem qualquer perspetiva de redenção.
Estamos numa espiral negativa de declínio, que, por ser suave e desfocada com demagogia e propaganda, acaba por ser assimilada pelo país, sem ter já força para a contestar e contrariar. O PRR pode transformar-se num instrumento desta perfídia, com a aquiescência da Europa, que, qualquer dia, irá desesperar de nós.
Quase a completar 900 anos de História, Portugal vai ter de ir buscar ao mais profundo do seu DNA a força indispensável para sacudir a maldição que sobre ele se abateu e que faz da pandemia e de todos os altos e baixos do nosso trajeto recente pequenos “fait-divers” face à seriedade do que nos espera se não formos capazes de reagir.
Face ao que vivemos, é pertinente recordar as palavras da filósofa russa Ayn Rand: “quando você perceber que, para produzir, precisa de obter autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negoceia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que a sua sociedade está condenada”. Estas palavras foram ditas há 100 anos atrás, mas a sua atualidade, entre nós, é dramaticamente dolorosa, por ser tão verdadeira.
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