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“Queremos a continuidade da nossa indústria”

“Queremos a continuidade da nossa indústria”

A indústria gráfica adaptou-se aos tempos. O apoio à produção em grandes formatos e a execução de obras que não conseguem ser acabadas de forma mecanizada são um nicho de trabalho que é executado sobretudo de forma manual. Mas há falta de mão de obra. O projeto europeu “Print your Future Project”, no qual participou a Manuel Ferreira & Silva, teve como objetivo de atrair os jovens trabalhadores qualificados para empregos de qualidade na indústria gráfica europeia. “Uma das nossas preocupações e desejos maiores é continuar a formar jovens para a arte da encadernação não se extinguir e com isso impulsionar novos projetos”, afirma Domingos Silva, sócio maioritário e fundador da empresa.


Vida Económica - O que significa este prémio da Apigraf e como é ser uma empresa ligada aos livros numa era digital? Que desafios maiores se lhe colocam?
Domingos Silva - Este prémio aumenta a nossa responsabilidade perante todas as pessoas que lidaram, lidam e lidarão connosco. Somos uma empresa antiga no mercado com um portfólio e know-how considerável. Uma das nossas preocupações e desejos maiores é continuar a formar jovens para a arte da encadernação não se extinguir e com isso impulsionar novos projetos.

VE - Como é feita a formação nesta área?
DS - Recebemos muitos jovens, normalmente em grupos escolares organizados, e notamos o interesse em aprender técnicas manuais, em compreender a execução do livro e, mais tarde, levar esse conhecimento para a vida profissional. Ajudam-nos a executar o nosso trabalho de uma forma mais eficaz e eficiente. A formação é feita internamente, mas, infelizmente, existem poucas pessoas dispostas a aprender e perdurar o legado. A personalidade calma, paciente, o gostar de executar tarefas minuciosas, são características importantíssimas no carácter de alguém que queira seguir a arte de encadernar. Recentemente, participamos no projeto “Print your Future Project”, apoiado pela União Europeia, juntamente com associações gráficas e unidades de ensino, com o objetivo de atrair os jovens trabalhadores qualificados para empregos de qualidade na indústria gráfica europeia. Tivemos oportunidade de salientar que queremos a continuidade da nossa indústria, usando um testemunho direto.

VE - Ao longo dos anos o que mudou no negócio da encadernação, quantas pessoas empregam e que tipo de máquinas utilizam?
DS - A nossa empresa emprega 10 pessoas, mas já foram 80 pessoas, no início da nossa atividade, quando não existiam máquinas e todo o trabalho era feito manualmente. Tivemos que nos adaptar, mas como o nicho é tão específico acabamos por apoiar a produção em grandes formatos, a execução de obras que não conseguem ser acabadas de forma mecanizada. As tarefas que executamos são sobretudo manuais, utilizamos algumas máquinas de apoio como rolo de dar cola, ou a máquina de estampar ou de baixo-relevo.

VE - Existem muitas empresas em Portugal e na Europa nesta área? Como está a saúde do sector?
DS - Felizmente existem mais empresas como a nossa, maiores, mais pequenas e é com grande satisfação que as conhecemos, temos contacto, cooperamos quando é necessário. Significa que outros se regem pelos mesmos valores de não deixar morrer a arte da encadernação.

VE - Quem são os clientes da empresa Manuel Ferreira & Silva?
DS - A encadernação Manuel Ferreira & Silva é uma empresa de arte manual, líder em Portugal no ramo, que alia a produção para empresas mecanizadas que necessitam complementar as respetivas atividades com trabalhos fora de formato, ou seja, com tamanhos fora dos limites máximos das máquinas. Conseguimos um mercado abrangente e com a antiguidade que nos distingue, temos clientes como figuras públicas nacionais e internacionais, bibliotecários, colecionadores, alfarrabistas, marcas de estacionário, gráficas, bibliotecas, câmaras municipais e associações. Os nossos clientes privilegiam o contacto com o livro, o folhear, sentir o cheiro do papel e o prazer de ter um belo exemplar encadernado nas estantes.

VE - Existe algum tipo de trabalho no qual a Manuel Ferreira & Silva se distinga face a outras empresas concorrentes?
DS - Maioritariamente a encadernação manual e termo estampagem por folha. O nosso “core business” são as encadernações de luxo, mas também restauramos livros.

VE - Qual a peça mais dispendiosa que já recuperaram ou encadernaram?
DS - Saíram várias encadernações de grande valor das nossas portas. Talvez a encadernação de “Os Lusíadas” iluminados por Julião Machado, como oferta a Suas Altezas, os Reis de Espanha pelo seu casamento, na altura ainda Príncipes das Astúrias, fosse a mais valiosa. Encadernamos um conto açoriano, “O Barco e o Sonho”, oferecido também ao então Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama. Foram obras lindíssimas, supervisionadas com o rigor e bom gosto.Já encadernámos para várias individualidades famosas, nacionais e internacionais, como o Papa, para vários presidentes da República, portugueses e estrangeiros, e pessoas conhecidas do meio político e televisivo. Temos também, a honra de trabalhar com o melhor editor de fac-simile do mundo.

VE - Como foi o ano de 2020 em termos de faturação e volume de vendas e que previsões tem para 2021?
DS - O ano passado foi atípico e não correspondeu às nossas expectativas, mas foi relevante para a nossa saúde financeira. Temos a facilidade e capacidade de nos adaptar a novos cenários, o que nos permite ter uma boa posição de mercado. Continuamos com projetos importantes, como a criação de um espaço museológico no centro da cidade do Porto, em que o público poderá ter contacto com o nosso percurso empresarial, materiais e ferramentas de encadernação, assim como um espaço de recepção de atividades educativas e de lazer. Enquanto empresa familiar, com todos os valores que nos foram passados e que nos estão intrínsecos, estamos convencidos que este espaço vai ser uma mais-valia, tanto para a cidade do Porto como para nós como empresa, e, acima de tudo, para preservar o nosso legado da arte de encadernação.Com a pandemia os projetos foram adiados, pelo que não temos ainda data prevista para a inauguração.
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