observador.ptObservador - 23 jul 00:08

Vai ficar tudo mal

Vai ficar tudo mal

A esperança não questiona: aguarda e anui. Só os desesperados, aqueles que não têm nada a perder, é que conseguem pôr em causa o poder autoritário.

Zeus quis, os deuses idealizaram-na e a mulher nasceu. Hefesto, fazendo uso da terra e da água, os elementos da mais universal das hierogamias, deu-lhe «uma bela forma desejável de virgem». Palas O «vai ficar tudo bem» é, por esse motivo, uma ilusão essencial para a sobrevivência de um bando moral e materialmente corrupto que na acumulação de normas ad hoc sem qualquer base racional vai testando, com a preciosa ajuda de alguns sicofantas e à boleia de um novo totalitarismo de rosto humanitário, a tolerância da população a um programa de eternização do poder. Junte-se-lhe uma porção considerável de medo e, com efeito, fica tudo bem para quem julga que manda. Os cidadãos consentem, ou porque são inatamente optimistas, ou porque foram manipulados pela comunicação social, ou porque não têm disposição para reflectir sobre a ruína que as interferências em estruturas sociais e económicas podem causar, para não mencionar a derrocada da democracia.

Em Carnage (2021), criado em pleno delírio colectivo, Nick Cave diz a dada altura: «a reindeer frozen in the footlights steps back into the woods». É difícil encontrarmos metáfora mais adequada para descrever aquilo que vivemos. Porque é disso que se trata: gente assustada e disposta a regressar à floresta. Talvez devêssemos ter estado mais atentos ao pessimismo dos modernistas e simbolistas e, principalmente, às distopias literárias e artísticas do século XX, pois foram criadas quando a humanidade se deu conta de que adquirira os meios para a auto-aniquilação. Em Stalker, o Cientista vai à Zona com o objectivo de destruir o quarto onde todos os desejos se concretizam. Ele sabe que qualquer técnica pode ser convertida em arma. Hoje percebemos que a histeria, quando transmitida e globalizada através dos novos instrumentos de vigilância, também tem um enorme poder de devastação. Talvez seja essa verdadeira descrição da Queda: do paraíso e da primeira sede de conhecimento, aos trambolhões pela escada do progresso até à inevitável extinção.

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