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Uma Escola para o nosso tempo, precisa-se!

Uma Escola para o nosso tempo, precisa-se!

Quando parece não haver falta de matérias para doze anos de escolaridade obrigatória, porquê manter programas tão desajustados da realidade e de objectivos societais básicos e que, também por isso, fazem os alunos sentir-se desmotivados pela Escola
I. O tempo da Escola

A minha filha acabou agora o 11.º ano de Ciências. Tinha quase 30 horas de aulas semanais, distribuídas por cinco tardes e três manhãs por semana. Tinha ainda “apoios”, aulas de dúvidas oferecidas pela escola, cuja frequência, não sendo obrigatória, era, em regra, recomendada pelos professores. Em casa, tinha, quotidianamente, que fazer TPC, preparar relatórios e apresentações, estudar para testes e exames. O fim-de-semana era, no entender de vários dos seus professores, a oportunidade ideal para consolidar aprendizagens. Neste final de ano lectivo, teve vários colegas a trabalhar até de madrugada (ela tentou nunca trabalhar para lá da meia-noite) e até a faltar a aulas para estudar para testes ou para preparar trabalhos de outras disciplinas. Teve vários colegas com dificuldades em conciliar o sono, com a ansiedade causada pela carga de trabalho. Os resultados da turma nunca foram brilhantes e os professores perguntavam-se amiúde (e aos alunos) porquê...

Admitamos que se espera que os nossos alunos do ensino secundário cumpram as 40 horas de trabalho semanal estabelecidas como máximo na lei laboral portuguesa. Às cerca de 30 horas lectivas, juntemos dez horas semanais para os diversos TPC e estudo e dividamo-las por sete disciplinas que abrangem um leque diversificado de áreas de conhecimento (línguas, filosofia, ciências e educação física), o que requer, reconheçamo-lo, um esforço e plasticidade significativos. Será exequível? E fará sentido exigi-lo aos nossos alunos? Com que objectivo?

Penso que esta exigência (ou esta expectativa) assenta em dois equívocos: o primeiro é esperar que estes alunos tenham um desempenho de adultos, que ainda não são. Aos 16 ou 17 anos, não pensamos, nem agimos, nem trabalhamos como adultos e é natural e desejável que assim seja; o segundo é que a escola, se pode ser considerada o “trabalho” dos alunos, não é (ou não deveria ser) o seu emprego, muito menos um emprego a tempo inteiro e sem direito a folgas ou fins-de-semana.

Entre estes jovens alunos, haverá sempre aqueles que desde cedo sabem exactamente (ou pensam que sabem) o que querem para o seu futuro. Esses estarão certamente mais motivados para entregarem todo o seu tempo a esta Escola. Mas serão a maioria? Dificilmente. E mesmo para esses, será essa a melhor opção de Escola?

Nesta idade, a maior parte dos jovens está a tentar encontrar o seu rumo, o seu caminho na vida. A Escola deve expor o estado da arte do conhecimento e abrir/alargar horizontes, para estimular em cada um a descoberta do seu potencial.

Para que isso aconteça, a Escola não pode monopolizar a vida dos alunos. Tem que lhes dar espaço e tempo para outros interesses, para outras actividades, incluindo a socialização e a inactividade – o ócio e o descanso, ingredientes essenciais para a descoberta de si mesmos e do seu caminho de vida.

Dizem-nos, porém, que tal não é possível, porque é fundamental cumprir os programas para que os alunos tenham bons resultados nos exames, para que possam entrar na universidade e ter sucesso na vida. Mas será que esta Escola prepara os alunos para a vida?

II. Uma Escola para o nosso tempo

O que é que a escolaridade obrigatória oferece aos alunos hoje em dia? Doze anos de programas extensíssimos, que não permitem, nem o tempo para sedimentar conhecimentos, nem a possibilidade de os explorar, muito menos de forma imaginativa e cativante; doze anos de programas em grande medida desligados da realidade dos alunos e da sociedade. Matérias que os próprios professores admitem não virem a ter qualquer utilidade prática ou real na vida futura da esmagadora maioria dos alunos. Alguns exemplos, no final da escolaridade obrigatória:

  • no português, os alunos têm que saber identificar um complemento oblíquo, uma sinédoque, uma apócope, uma oração subordinada adjectiva relativa restritiva (!), entre muitas outras complexidades gramaticais, mas o seu vocabulário é paupérrimo, tal como a sua capacidade de estruturar e formular uma ideia;
  • na matemática e na físico-química, têm que decorar e saber aplicar teoremas e princípios, aprender a fazer cálculos complicadíssimos, que serão para esquecer quando (se) entrarem na faculdade, mas não sabem calcular o custo real de uma taxa de juro, crítico quando precisarem de pedir um crédito para frequentarem um curso superior, para lançarem um negócio ou para a compra de uma casa; tão-pouco percebem quantos aspectos vitais da segurança rodoviária são uma questão de física...
  • na biologia, a fotossíntese é um tema recorrente, com uma maior complexidade adicionada em cada novo ano. Já no 10.º ano, os alunos têm que memorizar os passos em que se ganham e perdem electrões, mas não é garantido que percebam que é a fotossíntese que fornece o oxigénio que respiram...

Haverá falta de matérias para “(pre)encher” 12 anos de ensino obrigatório? Ao longo deste tempo, o que se aprende, por exemplo, sobre o país em que vivemos e como nos organizamos como sociedade? A organização administrativa do país é abordada na escola primária. Talvez fosse mais proveitoso ensiná-la mais tarde, mesmo já no secundário, quando os alunos estão quase a atingir a maioridade e serão chamados a votar em eleições (includindo europeias) que não sabem exactamente para que servem. A Constituição da República Portuguesa é desconhecida da maior parte dos alunos, que são basicamente ignorantes dos seus deveres e direitos básicos de cidadãos. Como poderemos esperar ter uma democracia participada?

Se as alterações climáticas (apenas uma das componentes da crise ecológica global) são ensinadas como um tema tão desligado da realidade como uma equação de 2.º grau; se em Portugal, país em que 97% do território é mar, não se ensina, por exemplo, que mais de metade do oxigénio que respiramos vem do oceano (e quanto este está a ser degradado pela acção humana); se a importância e urgência da acção individual nestes contextos é apenas aflorada, como poderemos promover a acção transformativa necessária para mudarmos para um rumo de desenvolvimento sustentável em que os jovens tenham as condições mínimas para realizarem aquele que será, certamente, o seu principal objectivo de vida: serem saudáveis e felizes?

e para a Escola?

Acredito que o caminho passa, inevitavelmente, por uma actualização urgente dos programas escolares, quer em termos de conteúdo, quer da sua extensão, com uma diminuição da carga lectiva, dando aos alunos uma maior possibilidade de se descobrirem como pessoas, de desenvolverem a sua autonomia e assumirem as correspondentes responsabilidades e de se tornarem cidadãos capazes de desempenhar o seu melhor papel na sociedade.

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