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Matar branco

Matar branco

Na manhã do regresso a Portugal, depois de um processo árduo, fiz o teste covid em São Tomé. Horas depois, telefonaram a dizer que tinha de ir ao laboratório. Não explicaram porquê. Chego lá. Não dizem o que se passa.

Vejo-me de quarentena. Só percebo que fizeram mal o teste quando já estou com nova zaragatoa, desta vez até ao cérebro. Não pedem desculpa pelo incómodo. Estava numa casa em Santana, terceira maior cidade de São Tomé, que fica a meia hora do laboratório.

Chamo um mototáxi. Diz que não sabe onde é. Chamo outro, outro e outro. Ninguém sabe. Até que um sabe e me leva para o sítio errado. Quer que entre no carro de um bêbado que me vai levar ao Clube Santana. Digo que não quero o clube. Ele diz que eu quero. Digo-lhe para não me chatear e viro costas.

Nova busca por mota. Até que um condutor me diz que sabe e me leva por setenta dobras. Cinquenta é o normal, digo-lhe. Aceita. E aí vamos nós, eu sem capacete, Nacional 2 abaixo a oitenta à hora.

Há um apagão. E de noite os santomenses ficam invisíveis. A mota passa-lhes tangentes, apita, desvia-se, a estrada é dos peões. Um carro ultrapassa-nos e berra para o condutor: "Cê quer matar branco?!" Eu digo que não quero morrer hoje. Ele diz que não, em São Tomé não se morre com tantas garinas.

Mais à frente, a comitiva de um candidato presidencial bloqueia a estrada. Dança-se a política. Há gente em cima de colunas de som, em cima de carrinhas, quase em baixo de carros. O trânsito não mexe para ouvir o candidato - e porque um camião avariou na nossa faixa de rodagem. A comitiva passa e o trânsito fica na mesma. Saio da mota e faço de polícia sinaleiro para avançarmos. Antes de seguirmos, alguém me oferece uma lanterna de bolso que projecta a cara do candidato.

Depois de meia hora, curva e contracurva com o motor velho a tremer de tal maneira que eu já sentia o olho do rabo dormente, lá chegámos a uma rua próxima. Saio da mota, queimo-me no escape. As mulheres na berma da estrada berram: "Branco é, branco é! Vem cá." Não vou lá.

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O caminho que falta está completamente às escuras por causa do apagão. A luz deambulou para longe. Ligo a lanterna do candidato a tempo de evitar um porco que estava refastelado no caminho. Antes de chegar a casa, tropeço numa pedra mas felizmente aterro na porta certa. E nem preciso de a abrir porque cede com a minha cabeçada.

*Escritor

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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