www.jornaldenegocios.ptjng@negocios.pt (Jornal de Negócios) - 21 jul 19:54

Lições para reguladores e gestores

Lições para reguladores e gestores

A promoção cega da concorrência aumenta os riscos sistémicos e torna as empresas e as economias mais vulner��veis a choques, com implicações imprevisíveis para a política e para os contribuintes, como aquela a que estamos agora a assistir.

A FRASE...

"TAP acusa Groundforce de falta de respeito por passageiros e trabalhadores."

Christine Ourmières-Widener, Jornal de Negócios, 17 de Julho de 2021

A ANÁLISE...

Do ponto de vista estritamente empresarial, o braço de ferro entre a Groundforce e a TAP mostra como os quadros institucionais de concorrência e regulação são determinantes para o sucesso das estratégias empresariais e fazem-nos pensar que nem sempre os gestores tomam em devida consideração os constrangimentos da economia. Também, e não raras vezes, nos colocam perante a adequação de muitos remédios concorrenciais, tal como o que parece impedir a TAP de ser detentora exclusiva da empresa de handling, integrando verticalmente as operações no aeroporto de Lisboa.

Está economicamente assente que a delimitação das fronteiras da empresa tem muito a ver com a especificidade dos ativos usados na produção. Na medida em que os recursos sejam idiossincráticos e sendo os custos de transação exorbitantes, recomenda uma boa estratégia de gestão que os mesmos sejam internalizados, ou seja, sejam geridos através da hierarquia, ao invés dos mercados. Quer isto dizer, não devem os mesmos ser objeto de terceirização - usando a expressão tropical - simplesmente porque se consegue um custo de produção mais baixo. Há outros aspetos a ponderar!

Custos de transação não são sinónimo de custos de produção. Haver alguém, fora da empresa, que consegue custos de produção mais baixos e num contexto de forte dependência - como ocorre no caso da TAP relativamente aos serviços da Groundforce - traduz-se em custos potencialmente exorbitantes, concretizados em situações extremas - como a que vivemos - e que põem em causa a sobrevivência da empresa. A incapacidade de produção do serviço (input) essencial propaga-se por contágio à empresa que dele mais necessita, ameaçando-a.

Este é um tema clássico da economia a requerer uma reflexão ao mais alto nível da gestão empresarial: a terceirização de operações transforma riscos operacionais em riscos estratégicos, exigindo respostas distintas da tradicional otimização estática de custos. Para os reguladores oferece um ensinamento, a juntar a tantos outros: a promoção cega da concorrência aumenta os riscos sistémicos e torna as empresas e as economias mais vulneráveis a choques, com implicações imprevisíveis para a política e para os contribuintes, como aquela a que estamos agora a assistir. 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

NewsItem [
pubDate=2021-07-21 18:54:34.0
, url=https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/mao-visivel/alvaro-nascimento/detalhe/licoes-para-reguladores-e-gestores
, host=www.jornaldenegocios.pt
, wordCount=412
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_07_21_1697220701_licoes-para-reguladores-e-gestores
, topics=[álvaro nascimento, opiniao]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]