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Visão | Imunidade de grupo pode já não ser atingida quando 70% das pessoas estiverem vacinadas

Visão | Imunidade de grupo pode já não ser atingida quando 70% das pessoas estiverem vacinadas

António Diniz, pneumologista e membro do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, faz uma análise da situação pandémica em Portugal. O pneumologista defende a utilização cada vez maior do Certificado Digital Covid como forma de incentivar a testagem e avançar no desconfinamento

Apesar de o País atravessar, atualmente, um período de crescimento do número de novos casos de Covid-19, sobretudo na zona de Lisboa, o pneumologista António Diniz considera que a situação não se reveste apenas de aspetos negativos. “Já temos parte da nossa população vacinada e isso condiciona a importância relativa que tem também o aumento da frequência de infeções”, disse hoje o médico na rubrica semanal da VISÃO, Conversas com Saúde.

Quanto ao aspeto mais negativo, o também membro do Gabinete de Crise da Ordem dos médicos aponta a variante Delta, que considera uma das principais causas na origem do aumento do número de novos casos na região de Lisboa e que, pelas características particulares que apresenta, “em sentido oposto à vacinação, torna os números mais preocupantes”.

A maior transmissibilidade, 60% superior à variante Alpha (inglesa), maior resistência que apresenta em relação à vacinação, sobretudo em pessoas que tenham apenas uma dose de vacina, e a possível capacidade em duplicar a necessidade de internamento são as três características que, segundo António Diniz, tornam a Delta uma variante de preocupação.

Nas pessoas com apenas metade do esquema vacinal (primeira dose), “a eficácia da vacina é de apenas 30%”, enquanto que nas que já foram inoculadas com ambas as doses, “o decréscimo é menor, entre 6% e 10%”, revela António Diniz. Ainda assim, o médico considera que este já demonstrado decréscimo na eficácia das vacinas (AstraZeneca e Pfizer), em relação à variante Delta, não é significativo em termos percentuais. “Mas, em relação à vacina da AstraZeneca, atinge um valor de 60%, que já não é um valor excelente para a eficácia vacinal”, alerta o pneumologista.

Neste momento, em Portugal, segundo os dados revelados este fim de semana pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, a variante Delta já é predominante em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, com percentagens na ordem dos 60% e, de acordo com António Diniz, “começa já a demonstrar sinais de progressão também no resto do país”.

Apesar de“Portugal ser o primeiro país, fora do Reino Unido, a apresentar tal expressividade desta variante, António Diniz assegura que “Espanha, Itália, França e Alemanha já têm proporções de maior ou menor significado da variante Delta. “Itália e Espanha à volta de 20% ou 30%, os outros menos, mas a variante Delta irá tomar o espaço que até ao mês passado estava a ser tomado pela Inglesa”.

O médico considera o facto natural e defende que “vamos estar sempre sujeitos à emergência de estirpes que possivelmente serão mais agressivas do que as que predominavam anteriormente”. O ciclo será quebrado, diz António Diniz, apenas com a imunidade de grupo que, no entanto, poderá já não ser atingida quando 70% das pessoas estiverem vacinadas.

Repercussões no SNS sentir-se-ão na área não Covid

Um dos problemas que o país terá de enfrentar num futuro próximo será o aumento de hospitalizações, proporcionado pela “maior transmissibilidade do vírus e maior possibilidade de internamento”. No entanto, António Diniz relembra que a realidade atual não se pode comparar àquela de há três meses atrás, graças à população que já está vacinada e que, anteriormente, “gerava maior número de internamentos, internamentos em cuidados intensivos e desfechos mais infelizes, como o óbito”. Ao aumento do número de casos corresponde assim, de uma forma não proporcional, o aumento de internamentos, mas “com menor repercussão” do que na terceira vaga.

As repercussões, “que já estamos a ter” são essencialmente sobre a população não Covid, alerta António Diniz. “Quando temos necessidade de abrir mais uma enfermaria Covid ou uma ala de Cuidados Intensivos, como é evidente isto não estica. Vamos ter de ir retirar a outras áreas essas mesmas camas e recursos humanos”.

Tendo em conta esta realidade, a Ordem dos Médicos considera que a matriz de risco atual não está atualizada, “porque não corresponde à realidade que temos hoje”, diz António Diniz. O pneumologista defende ainda que deveriam ser traçadas linhas amarelas de alerta, mais precoces, além de linhas vermelhas, pois, “quando não conseguimos travar os nosso adversários no meio campo, é fácil eles chegarem à nossa baliza e marcarem golo” e passamos a estar, sistematicamente, “a correr atrás do prejuízo”. O médico defende ainda que estas linhas sejam traçadas, primeiro, a nível hospitalar, depois a nível regional, pelas Administrações Regionais de Saúde e, só no fim, a nível nacional.

Vacinar, testar e certificar para poder avançar

Testar, rastrear e isolar são as principais armas, a par da vacinação, no combate ao aumento do número de novos casos. Mas António Diniz não tem dúvidas que, “aquilo a que temos assistido é que o número de casos está a aumentar e o número de testes a diminuir”.

Perante a vacinação que avança e a testagem que teima em diminuir, o certificado digital Covid é apontado pelo pneumologista como a arma mais poderosa da qual nos podemos munir, neste momento.

O documento, além de confirmar quem foi vacinado e quem já recuperou da doença, atesta ainda que já foi testado e poderá consistir, segundo António Diniz, um incentivo à testagem voluntária, caso comece a ser exigido para entrar em restaurantes, bares, casamentos, batizados, espetáculos ou outros eventos. “É uma medida que dá coerência a todas as posições e está adaptada à existência de uma população vacinada, recuperada ou testada versus uma outra população, que é quem transmite a doença, que não tem nenhum destes fatores”.

Em relação à possibilidade de alguém vacinado e com certificado digital poder ser reinfetado, António Diniz revela que é muito baixa, mas não impossível. “Todos nós sabemos que as vacinas não são 100% eficazes”. Segundo os últimos dados divulgados pela DGS, 1231 pessoas foram infetadas por SARS-CoV-2 após terem recebido duas doses de vacina.

“Essas mil e tal pessoas, face aos dois milhões que haviam sido vacinados, representam uma percentagem baixíssima, portanto dá-nos, sobretudo, uma sensação de segurança em relação à vacina”, afirma o médico, o que não exclui que “possam existir casos, até casos graves, e óbitos” dentro de quem foi vacinado.

Manter as medidas de proteção individual, “nomeadamente a utilização da máscara, mesmo os vacinados, porque a varante Delta é mais transmissível”, aderir voluntariamente ao processo de testagem, utilizar o certificado digital Covid e não falhar a vacinação “de forma nenhum” são as recomendações que António Diniz deixa à população em geral.

Às entidades decisoras o médico relembra que “a pandemia mudou, a vacinação introduziu uma alteração drástica, que será cada vez mais acentuada, e, por isso, temos de atuar de forma inteligente em relação à situação de um ano e meio de pandemia”.

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