visao.sapo.ptapfigueiredo - 10 jun 19:13

Visão | Como se perderam as “figuras de autoridade”?

Visão | Como se perderam as “figuras de autoridade”?

Muitos pais caíram num registo de permissividade e esqueceram-se que talvez sejam as primeiras figuras de autoridade dos seus filhos. Artigo da psicóloga Catarina Lucas

Todos, em diferentes contextos, nos vamos confrontando com a dificuldade em sermos respeitados, em ver as normas e regras serem cumpridas ou com a dificuldade em percebermos, enquanto sociedade, que apesar dos muitos direitos conquistados (felizmente), continuamos a ter deveres que precisam de continuar a ser cumpridos, sobretudo quando esses garantem uma convivência tranquila e pacífica em sociedade.

Contudo, diariamente somos confrontados com professores que não se conseguem fazer ouvir, que não conseguem cumprir uma das mais nobres missões do ser humano: ensinar e transmitir conhecimento. Também frequentemente observamos, das mais variadas formas, agentes policiais a não conseguirem garantir a segurança e o bem-estar da comunidade. Certamente, cada um de vós já se deparou com situações de difícil gestão pela dificuldade em garantir o respeito entre as partes. Também eu enquanto psicóloga e, seguramente mais uns quantos colegas meus, somos confrontados com dificuldade dos pais e figuras parentais em exercer o seu papel de cuidador, mas também de educador.

O que aconteceu então? Para onde foi o respeito que outrora existia? Seria o medo que entretanto se perdeu? Será que já não nos resignamos perante a autoridade? E será isto bom ou mau? Imagino que muitos se insurjam perante esta pergunta. Contudo, ela é apenas um convite à reflexão. Uma reflexão que tenho procurado fazer algum longo dos últimos anos, a qual vou alicerçando no meu trabalho diário de escuta de pessoas.

Começo por refletir sobre as questões parentais. Não serão elas o primeiro parágrafo desta nova história? O trabalho com pessoas e com as suas histórias de vida permite-me compreender a forma como muitos tentaram fazer diferente em relação aos seus filhos e em relação a si próprios enquanto pais. Não é incomum perceber que muitos quiseram fazer com os filhos algo diferente daquilo que os seus pais haviam feito consigo mesmos. Mas será isto tão errado assim?

Não é, em teoria nem na sua essência, todavia, alguns exageros podem ter sido cometidos neste processo que se queria de melhoria. Quero com isto dizer que muitos pais caíram num registo de permissividade e esqueceram-se que talvez sejam as primeiras figuras de autoridade dos seus filhos. Assistimos hoje a pais com extrema dificuldade em implementar regras, em dizer “não” e em impor limites. A consequência disto começa a ser visível em jovens com baixa tolerância à frustração, com pouca preparação para as dificuldades da vida adulta ou até para as dificuldades do mercado de trabalho. Se por um lado temos jovens brilhantes, altamente qualificados e com tudo à sua frente, temos, por outro lado, jovens impacientes, frustrados e pouco resilientes, com dificuldades em lidar com a “autoridade” de um professor ou de um chefe, pois também não tiveram de lidar com a “autoridade” das suas figuras parentais. Com isto, não me refiro a comportamentos repressivos ou condicionadores da liberdade de expressão e de autodeterminação. Refiro-me apenas ao respeito que figuras como estas nos merecem e que, aparentemente se tem vindo a perder. Refiro-me a pais que estão neste momento reféns de crianças que lhes dizem que não gostam deles, sendo  insuportável para os pais tal afirmação. Também os pais de hoje não conseguem gerir a frustração e desânimo perante um “não gosto de ti” vindo dos seus filhos e tudo fazemos para agradar, para que gostem de nós. Como se assim os estivéssemos amar mais. Pelo contrário, amar também é dizer “não”, também é ensinar a lidar com a frustração, mostrar que as coisas nem sempre são como queremos ou desejamos e que a longo da nossa vida os obstáculos são muitos. Contudo, as nossas crianças e jovens não estão a conseguir aprender isso no seu desenvolvimento.

É importante refletir sobre isto e avaliar onde e como nos queremos posicionar. Será que queremos efetivamente estar no extremo oposto àquele onde os nossos pais estiveram? Terão eles feito assim tão pouco com o pouco que tinham? Será que deveríamos repescar alguns dos seus ensinamentos? Quais?

Lembremos aqueles candeeiros a petróleo que existiam em muitas casas de pais e avós. Onde andarão? É verdade que hoje já não precisamos deles e é também verdade que muitos estão a ser reconvertidos em peças de decoração ou até adaptados para serem usados ligando-os à corrente elétrica. Não poderemos nós ir buscar um desses candeeiros a petróleo e readaptá-lo aos nossos dias? Quero com isto dizer que talvez possamos ajustar as práticas parentais sem perder totalmente a essência daquela que foi até mesmo a nossa educação e formação. Talvez não precisemos de saltar para o outro extremo pois, tal como se preconiza atualmente, os extremos são perigosos. Vamos por isso tentar ser quem somos e não aquilo que nos dizem para ser. Não está sempre tudo mal ou errado. Precisamos de bom senso e as crianças precisam de quem lhes ensine o caminho, sobretudo enquanto ainda não têm competências ou capacidade para o escolher livremente.

Os textos de opinião refletem apenas a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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