visao.sapo.ptClara Cardoso - 5 mai 08:30

Visão | O desaparecimento dos dinossauros da fé

Visão | O desaparecimento dos dinossauros da fé

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores dinossauros do mundo cristão nos deixaram

O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia. Com estudos em filosofia nos Estados Unidos e doutoramento em teologia em Inglaterra, Padilla foi membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, dirigiu a editora Kairos, ligada à Fundação Kairos e presidiu à Tearfund, uma instituição internacional de solidariedade social. Em 1999, criou e dirigiu a Rede Miqueias, uma comunidade global de cristãos que conta com 550 membros em mais de 80 países, incluindo Portugal e que junta ONGs, organizações humanitárias, missionárias, escolas, igrejas e indivíduos mobilizados e comprometidos com a missão integral.

Nascido no Equador fixou-se na Argentina, tendo mantido atividade significativa como autor e organizador de obras publicadas em diversas línguas. Como David C. Kirkpatrick escreveu no seu obituário “Padilla era mais conhecido como o pai da missão integral, uma estrutura teológica que foi adoptada por mais de 500 missões cristãs e organizações de ajuda humanitária, incluindo Compassion International e World Vision. A missão integral levou os evangélicos ao redor do mundo a ampliar a sua missão cristã, argumentando que a acção social e o evangelismo eram componentes essenciais e indivisíveis – nas palavras de Padilla, ‘duas asas de um avião”.

Padilla teve a coragem de, ao discursar no Congresso de Lausanne (1974) perante quase 2.500 líderes evangélicos e protestantes de mais de 150 países e 135 denominações, ter interpretado “as esperanças e sonhos de muitos evangélicos do Sul Global que buscaram igualdade na tomada de decisões de igrejas e organizações missionárias em todo o mundo.” Em particular
Padilla exortou os americanos a arrependerem-se de exportar o “american way of life” para campos missionários em todo o mundo, desprovidos de responsabilidade social e cuidado com os pobres, defendendo assim um conceito de “missão integral”. Uma frase que ficou foi: “Jesus Cristo veio não apenas para salvar a minha alma, mas para formar uma nova sociedade”.

Apesar de ser convidado recorrentemente para assumir cargos na América, este filho de um alfaiate optou por permanecer na América Latina, pastoreando entre os pobres, ele que, ainda muito jovem foi moldado por um contexto de violência, opressão e exclusão, vendo a sua casa atacada com bombas incendiárias e tendo sofrido várias tentativas de assassinato contra ele e o seu pai devido ao testemunho da fé.

Padilla irritava alguns dos seus críticos, que se recusavam a considerar a ética social como parte da mensagem do evangelho, pois cheirava-lhes a evangelho social e liberalismo teológico. Mas aquilo que René Padilla – aliado a Samuel Escobar, Pedro Arana e outros – fez com a sua região de origem, a América Latina, terão os europeus de fazer com a Europa, isto é, uma autonomização da influência teológica americana, de características marcadamente imperialistas.

Ainda Kirkpatrick: “A relação entre sofrimento e teologia era orgânica para Padilla. Quando jovem, ele lembrou ‘o desejo de compreender o significado da fé cristã em relação às questões de justiça e paz numa sociedade profundamente marcada pela opressão, exploração e abuso de poder’. A questão para Padilla não era se o evangelho falava para um contexto desafiador da América Latina, mas como. Essas perguntas levaram Padilla a buscar respostas na educação teológica e no ministério prático entre estudantes universitários.”

O desaparecimento das grandes figuras de homens e mulheres que ficaram para a história sempre deixaram atrás de si um sentimento de orfandade, de vazio, que as gerações seguintes haveriam de colmatar já que, como se sabe, a natureza tem horror ao vazio.

Quando se vão figuras como os protestantes latino-americanos René Padilla ou o inglês John Stott (1921-2011), o evangélico norte-americano Billy Graham (1918-2018) e o católico europeu Hans Kung (1928-2021) é caso para pensar que outros se levantarão, porque Deus nunca ficou sem testemunhas. Até porque, se necessário, ele mesmo fará com que as próprias pedras falem: “E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:40).

Os textos de opinião refletem apenas a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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