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Julião Sarmento morre atropelado enquanto olhava para as pernas de uma mulher

Julião Sarmento morre atropelado enquanto olhava para as pernas de uma mulher

Morreu o mais internacional dos artistas portugueses. Tinha 72 anos, e estava internado na Fundação Champalimaud, debatendo-se desde há meses com um cancro. Mas se a sua obra foi um dos mais exuberantes delírios sensuais da arte contemporânea, é mais correcto vê-lo partir de acordo com uma das suas ficções preferidas.

Esperemos de olhos fechados a passagem do vento, depois talvez se possa abri-los, mas novos, como se rasgados, lavando-se no confronto com o mundo e as coisas. Julião Sarmento tinha como graça superior a noção da incompletude do homem, da própria realidade. Quando se diz que foi grande, o maior daqui até ali, e certamente o mais internacional dos artistas portugueses, isto dever-se-á atribuir ao dom para um género de indisposição que tirava um gozo imenso de recompor o universo visual e poético, dialogando no trabalho artístico com o que tinha à sua volta. Não era insinuante ele ou as suas obras, mas o reflexo que sabia tratar como um corpo, com essa espécie de coragem de quem se permite soltar o que lhe parece indissoluvelmente próximo. Assim, a sua obra desdobrou-se sem limites, num despudor tremendamente confiante, em combinações e encadeamentos associativos, estendendo-se da pintura e do desenho, da fotografia e dos múltiplos, do filme e do vídeo à escultura, passando pela performance. Bebia continuamente do prazer que a arte lhe dava, e o espaço revelava-se nutritivo, vivificante. Era como se sonhasse sem mãos, para depois, acordado, refazer o caminho com essa força instintiva de quem já lá esteve e sabe. Como escreveu o curador João Silvério, que lhe era próximo e foi responsável por várias mostras do seu trabalho, “a aproximação à sua obra determina, em cada sujeito, uma miríade de projecções e sensações – muitas vezes ambíguas – que oscilam entre o encontro com a intimidade individual e o reencontro com o imaginário colectivo. Este imaginário reencontrado, enquanto acontecimento e experiência estética da obra, compreende uma amplitude que se desenvolve nos interstícios da pintura, da fotografia, do cinema, da literatura ou da teoria do pensamento estético, e conhece a ultrapassagem do seu próprio limite na incorporação da fronteira que estabelece com as suas vivências pessoais.”

Morreu e muitos nem sabiam que estava doente. Fora-lhe diagnosticado um cancro há uns meses e, esta terça-feira, chega de repelão a notícia. Tinha 72 anos e deixa a sensação de ter saído à francesa. Era, no entanto, dessa classe tão rara de portugueses sem complexos, nem inferioridade nem o balanço que se lhe liga, as altas poses desses exilados do fundo do horizonte que surgem sempre aureolados, ora muito magnânimos ora enfurecendo-se por bagatelas. Julião Sarmento era incaracteristicamente desassombrado na sua forma de dialogar e provocar o público, e começava por orgulhar-se de não ter sido preciso ir explicar-se lá fora, e voltar entre as salvas de tiros, essas balas miseravelmente contadas e recontadas. Disse numa entrevista ao Público que andou por Londres... "Mas a minha vida foi quase sempre passada cá. Nunca me interessou muito ser estrangeirado. O que queria era funcionar com os meus pares, por todo o lado. Apetecia-me não ser um artista local. Apetecia-me ser um artista, ponto final. E funcionar globalmente – “global village” – sem ter de sair daqui. Acho que isso foi a minha grande vitória. Em retrospectiva, se há alguma coisa que eu consegui fazer de diferente em Portugal é ter conseguido fazer a minha vida vivendo em Portugal.”

Também assim, o seu olhar tinha essa convicção estupenda de se dar um papel organizador do mundo, deixando um arquivo que integra imagens e textos ou signos numa cadeia auto-referencial e que não obedece a uma ordem ou a uma hierarquia, como nos diz João Silvério. “Como se este olhar fosse o epicentro de um índice panóptico onde todas as referências são possíveis, mas em que a revelação destas, enquanto acto artístico, é sujeita a uma dissecação que expõe o fragmento, ou o vestígio, e a uma singular noção da espacialidade demarcada pela consciência da corporalidade enquanto arquétipo do seu estado transitório entre o que é visível e o que é a memória e o registo da sua presença, por vezes, dúplice.”

A sua presença parecia fazer desaparecer tudo o que perdeu o viço. Este filho único e neto único, nascido em Lisboa, a 4 de novembro de 1948, soube fazer-se príncipe com uma coroa em pedaços, apreciar os restos descolados do reino dividido, e teve a noite como a melhor parte dos dias, sendo desde os anos 80 uma figura decisiva à imagem de Jep Gambardella, o protagonista de “A Grande Beleza”, de Paulo Sorrentino, que a certa altura, falando da forma como se precipitou no “vórtice da mundanidade”, diz que não queria apenas ser mais um mundano, e ser chamado para as festas, queria ter o poder de as levar à falência. Se houve uma movida lisboeta, ele esteve no epicentro. O seu gosto era uma razão, e impunha-se. Vendia muito. E isso conta mesmo ou até sobretudo entre quem não percebe puto de arte contemporânea ou outra qualquer. Tinha a sua obra espalhada por colecções privadas e públicas de várias cidades europeias e americanas, entre elas coleccções de referência como as da Tate (Londres), do Pompidou (Paris) e do MoMA e Gugenheim (Nova Iorque). Tinha dinheiro, gastou muito em festas, e era também um coleccionador que, dado o seu faro, ditava aos ventos em que direcção soprar. Nesse sentido, não apenas estava em diálogo com a cena artística nacional, mas era um anfitrião, e embora fosse relutante no que toca a servir-se da sua visibilidade, fazia-o quando estava em causa apoiar artistas e amigos em cujo trabalhava acreditava. A sua crença na arte era a de quem nunca tinha pesado em relacionar-se com o mundo de outra forma. Na tal entrevista ao Público, dizia que nem se lembrava de ter alguma vez desejado ser outra coisa, fosse bombeiro ou cowboy... “Quis sempre, sempre, ser artista. E aqui fiquei. Nem sequer dizia ‘quero ser artista’. Era uma certeza tão grande como andar, como falar.” E o seu percurso é a expressão mais convicta disto mesmo, ligando-se desde os anos 70 a um regime de pesquisa constante, numa perpétua febre, fazendo de si o fantasma que atravessa tantos corpos, cultivando uma inspiração vagabunda, servindo-se, como nota o crítico de arte João Pinharanda, de códigos de identificação privilegiados, com a sua obra a abrir-se para um universo de referências em constante expansão, sejam elas literárias, cinéfilas, artísticas, fotográficas e biográficas. E se nunca se perde, isso explica-se, como disse numa entrevista em 1991 a Alexandre Melo, por as suas formas terem sido quase sempre definidas através do traço. “Isto mostra que, no meu caso particular, o desenho sempre foi determinante. Mais do que pintar eu desenhava com tinta.” 

Caracterizado como “um artista do desejo” (Pedro Lapa), reconhecia como esse impulso o orientava, a ponto de falar nos orgasmos que lhe deram alguns dos desenhos de mulheres que fazia, e era à noção do interdito que ia buscar muito do seu ânimo transgressivo, nomeadamente no campo do erotismo e da sensualidade. Numa entrevista dada à jornalista Vanessa Rato, falava na perversa satisfação que retirava de ir para lá desse interdito. Sentindo-se próximo em muitos aspectos dos artistas mais novos, pela coragem e a liberdade que impedia a anquilose do pensamento, admitia, no entanto, que o ponto em que se afastava vinha da experiência de ter crescido “durante a negra noite fascista”. “Quando era puto, quando era adolescente, a nossa informação era zero, o nosso interesse pelas coisas era muito, mas o acesso era zero. E tudo o que fosse rebentar com a panela de pressão em que estávamos era fantástico. (...) Todos os livros com um mínimo de inteligência eram proibidos. A literatura, o cinema, o teatro – era tudo proibido. As gerações posteriores não têm – e ainda bem – a menor noção do que era Portugal naquela altura. Era densamente sinistro e cinzento. E eu sempre lidei muito mal com a censura, desde a educação dos mais pais. Era: o menino não pode fazer isto, o menino não pode fazer aquilo... Censura atrás de censura. Ao ponto de explodir e gritar: porra!, mas afinal o que é que eu posso fazer?”

Era mau aluno, e em vez da sala de aula preferia a sala escura, tendo feito parte de muitos cineclubes. Numa entrevista dada a este jornal, em 2015, contava que tinha o hábito de se baldar às aulas para ir ao cinema, e que o seu primeiro mestre foi Antonioni. “Influenciou-me muito, como artista e como homem. Ele é de uma frialdade inacreditável. Apresenta factos, mas não faz juízos de valor. Isso marcou-me muito.” Em 1967, matriculou-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa, começando por fazer dois anos de pintura, para depois tentar a Arquitectura, para desistir e voltar ao curso de Pintura, acabando por concluir que não lhe valia de muito terminar o curso. “A suprema coisa que aprendi nas Belas Artes foi que não tinha nada a aprender lá.” De resto, na entrevista dada ao i, Julião Sarmento falava no encanto que tinha por essas visões que incorrem em pecados estéticos, que se comprometem, essas que mais próximas estão dos trabalhos de uma natureza invertida, mutilada e truncada. “Eu gosto muito de fazer coisas que estejam esteticamente erradas. Interessam-me as coisas que são quirky, estranhas. É muito fácil fazer uma pintura certa, em que tudo funciona. Mas isso a mim não me interessa. O desequilíbrio é o que me interessa. Interessa-me muito mais o desequilíbrio do que as coisas estáveis. As coisas muito estáveis e certinhas não levam a lado nenhum a não ser a uma pasmaceira de café com leite. Interessam-me muito mais as coisas que estejam à beira do precipício.” Neste sentido, o desejo que a sua prática artística exprime aproxima-se daquela pulsão que o Fausto de Goethe assume ao dizer que não é simplesmente a alegria o que lhe interessa, mas um certo frenesi, esse prazer que mais nos dói. E João Pinharanda reconhecia como uma referência matricial na sua obra as representações voyeuristas das narrativas visuais de Sade. “Trata-se de escolher de modo particular (quer dizer, exclusivo) certas partes do corpo, fragmentos significativos de corpos. Trata-se de representar para olhar e de olhar para representar. Não são partes sem acção (mortas, realmente separadas) mas partes em acção (gestos, poses, ou seja, movimentos). Sarmento não olha o corpo decapitado ou decepado para representar a ruína violenta da vida nem estuda separadamente os fragmentos em acção para depois os reconstituir. Cada fragmento tem uma vibração própria.”

Uma passagem pela secretaria de Estado da Cultura, quando esta era tutelada por David-Mourão Ferreira, no período que se seguiu ao 25 de Abril, permitiu-lhe, a ele e a Fernando Calhau, de quem se fizera amigo na ESBAL, viverem um dos raros períodos de efervescência cultural naquilo que em tempos se entendeu que seria um contraste decisivo com o cinzentismo do anterior regime, tendo sido possível então apoiar e impulsionar as obras de artistas que, na década seguinte, viriam a afirmar-se como a linha da frente da arte contemporânea portuguesa. O próprio Sarmento nunca perdeu de vista que o principal era a criação, e se só em 1985 pôde dedicar-se exclusivamente à prática artística, as exposições sucediam-se a bom ritmo desde meados da década anterior. Começaria então o processo de internacionalização, participando em exposição individuais e colectivas em museus e galerias um pouco por toda a Europa e também nos EUA. Foram marcos decisivos na sua afirmação o ter sido o artista escolhido para representar Portugal na Bienal de Veneza de 1997, tendo participado já antes na edição de 1980, e regressando mais tarde, em 2001. Nas últimas décadas, contou ainda com grandes retrospectivas no Witte de Witte (Roterdão, 1991), no Reina Sofia (Madrid, 1992), na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1993, 2000), e no Museu de Serralves (Porto, 2012-2013). Quanto ao sucesso, recusava-se a deixar-se andar às suas ordens, e via com grande suspeita a forma como Portugal sempre precisou de um herói, agarrando-se a ele e deixando definhar os demais. Apesar da sua opção por ter ficado no país, e mesmo que se tenha sempre sentido acabado de chegar à maioridade, dominado por um tesão que não murchava, na entrevista ao i disse que acabou por se zangar com Portugal. “Isto é um país sem futuro. Os portugueses, de uma maneira geral, são medíocres. E somos chefiados por uma cambada de medíocres. Somos pouco ambiciosos e muito coitadinhos. E digo isto mas sempre lutei por Portugal. Nunca quis ser um daqueles artistas estrangeirados que vivem em Paris, mas vêm a Portugal fazer exposições. Sempre preferi ser o que ia a Paris fazer exposições.”

Disse também a este jornal que não pensava no fim. (“Porra, não! Farei os possíveis para não morrer, mas, se acontecer, que seja o mais tarde possível.”) Talvez ninguém tenha ficado tão surpreendido como ele que a morte tenha vindo, assim, sem cerimónias. Dando-lhes uns meses, e depois: zut. Mas a obra e, dentro dela, o olhar de Julião Sarmento persistirá, o mesmo gozo de se perder, o de quem se sente tomado por um desejo irrefreável, o do miúdo que se reviu no filme de Truffaut L’homme qui aimait les femmes, aquele em que o protagonista morre atropelado por um Porsche quando ia a olhar para as pernas de uma mulher. “Há piores formas de morrer”, assegurava Sarmento na entrevista a este jornal. E se gostava tanto da ficção, se admitiu que nas entrevistas de vida que foi dando deixou entrar alguma dose de fantasia, algumas lérias, a homenagem mais séria é dizer que não foi um cancro, que foi atropelado quando ia a olhar para as pernas de uma mulher. 

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