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Amor e vacinas

Amor e vacinas

O meu pai pediu-me que pesquisasse quem era vacinado primeiro, se ele como velho e insuficiente cardíaco, se a minha mãe como velha e insuficiente renal. Já se vê que ambos têm as suas insuficiências, mas não onde mais interessa: naquilo a que chamamos coração, naquilo a que chamamos entendimento.

Como qualquer formulário, verificar as fases de vacinação tem pouco de fabuloso. Não estávamos às portas da caverna dos quarenta ladrões nem aguardávamos as maravilhas de Tutankhamon, mas encontrar os nomes seria descoberta valiosa para as tragédias e alegrias do quotidiano.

O meu pai entrava na lista dos escolhidos, a minha mãe não. Reagiu: nunca aceitaria, impossível compactuar.

Como todo ele é um acto puro, sem barreiras entre o espírito e o corpo, pensou, disse, fez. Uns minutos depois, escrevia ao Centro de Saúde de mão estendida, qual pedinte por saúde alheia: "Em anexo vai um screenshot do plano de vacinação em que a minha mulher não está contemplada. Verifiquem isto por favor, pois não posso viver sem o amor da minha vida. Se for necessário, dou a vez à minha adorada".

Imagino o mail a correr o Centro de Saúde como pedra-de-toque, o que por vezes acontece com o que é belo e puro. "Tu não me tratas assim porquê?", diria a enfermeira ao namorado, dando-lhe chapadinhas no ombro, semiternura, semifalta dela. O segurança endireitaria os ombros e diria: "Nós, homens, somos todos iguais". A médica imprimiria para guardar em papel por cima dos relatórios dos problemas cardíacos.

O meu pai é de facto um problema cardíaco. E não falo do mixoma ou dos enfartes. Falo da minha mãe.

Uns dias depois, o Centro de Saúde assegurava que Teresa tal de tal já constava, e logo o meu pai respondia: "Hoje, já vou poder dormir... finalmente".

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A minha mãe assiste a esta dança nupcial há sessenta anos. E encanta deixando-se encantar. É um jogo antigo cujas regras só eles conhecem.

A hora da vacina. "Sr. Afonso, prepare-se para um febrão", a enfermeira a pôr todo o seu peso na ponta da agulha. Mas o febrão nada tem que ver com AstraZeneca. Começou nos anos sessenta, manteve-se década a década até hoje, namoro excessivo do qual sou um produto imprevisto, fora do tempo.

A enfermeira concentrava-se no braço esquerdo, prestes a enfiar a agulha, quando o meu pai disse que não, nesse nunca. O certo era o outro: e apresentou a tatuagem do coração contendo um T. A enfermeira não agulhava à vontade do utente, mas lá percebeu que era fatal. O coração levou a vacina em cheio como seta de cupido. E o meu pai logo anunciava à minha mãe que a vacina resultaria por ter sido dada no sítio ideal.

O meu pai não é Jacob nem a minha mãe serrana bela, mas outras sete doses tomara, não fora para tão longo amor tão curta a pandemia.

*Escritor

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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