jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 5 mai 00:07

Valorizar as empresas valorizando o trabalho

Valorizar as empresas valorizando o trabalho

Para termos bons salários, é preciso baixar a fiscalidade sobre as empresas, aliviar os custos de contexto e aumentar a produtividade do trabalho. Do lado dos empresários, tem de haver consciência cívica para estabelecer políticas salariais mais justas.

Um estudo recente revelou que, em Portugal, um terço do total de pobres (32,9%) tem trabalho e salário certo no final do mês. Visto noutra perspetiva, 11% dos trabalhadores portugueses vivem no limiar de pobreza, ou seja, com menos de 540 euros líquidos por mês. E a maior parte destes trabalhadores pobres até tem vínculos estáveis, muitos há mais de 10 anos. Estes números retratam a insuficiente valorização do trabalho no nosso país e as dramáticas consequências sociais dos baixos salários.

Até à liberalização do comércio internacional, a competitividade das empresas portuguesas resultava, em muitos casos, do baixo custo do fator trabalho, aliado a uma moeda com fraco valor cambial, o escudo. Com a entrada em força no mercado global de produtos provenientes de países com salários ainda mais baixos, como a China, e mais tarde com a introdução do euro, o tecido empresarial português teve de encontrar fatores de competitividade (qualidade, design, inovação, branding, tecnologia, etc.) alternativos ao preço dos bens e serviços.

Em muitos setores e empresas foi, de facto, possível subir na cadeia de valor e gerar maior valor acrescentado. Ainda assim, os salários permaneceram genericamente mais baixos do que os praticados nos nossos parceiros europeus, em particular nos setores de mão-de-obra intensiva. Os ganhos remuneratórios dos últimos anos resultaram, sobretudo, da subida do salário mínimo definida a nível governamental. Mas, como o estudo indica, pagar salários mínimos não chega para garantir padrões de vida dignos, para além de não resolver o problema da falta de competitividade do tecido empresarial.

As empresas queixam-se, e com razão, que não podem pagar bons salários devido à carga fiscal sobre o trabalho, aos custos de contexto e à baixa produtividade laboral. Por conseguinte, a promoção de remunerações mais dignas deve passar pela melhoria do ambiente empresarial, e não apenas pela imposição anual de uma subida do salário mínimo.

Para termos bons salários, é preciso baixar a fiscalidade sobre as empresas (em particular a TSU), aliviar os custos de contexto (eletricidade, telecomunicações, combustíveis, transportes, licenciamentos, litígios, etc.) e aumentar a produtividade do trabalho. Isto sem esquecer que, do lado dos empresários, tem de haver sensibilidade social e consciência cívica para estabelecer políticas salariais mais justas.

Importa acrescentar, a propósito, que a produtividade por cada hora laboral em Portugal representa apenas 65% da média dos países da UE. Isto significa que o nosso país tem de fazer, neste indicador, um grande esforço de convergência em relação aos seus parceiros comunitários. Sendo certo que, entre nós, a falta de produtividade não radica no absentismo ou na indolência dos trabalhadores.

Na economia portuguesa trabalha-se arduamente e durante mais horas do que na maioria dos países europeus (média de 40,8 horas cá e de 40,2 horas na UE). Portanto, o problema está na formação dos trabalhadores e também na organização, eficiência e flexibilidade das empresas, ou seja, na qualidade da sua gestão, que ainda é tendencialmente baixa.

É necessário otimizar todos estes fatores – fiscalidade, custos de contexto, formação e gestão –, de forma a adotarmos um paradigma salarial que dignifique o trabalho e, por esta via, não só combata a pobreza como reforce a competitividade. Enquanto os salários forem baixos, as empresas não têm incentivos para introduzir tecnologia ou investir em inovação. Vão continuar orientadas para o mercado de volume, ao invés de apostarem no valor acrescentado dos produtos – fator que depende muito do capital humano e do seu grau de satisfação profissional.

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