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O Governo da decisão: o equilíbrio necessário

O Governo da decisão: o equilíbrio necessário

Nos últimos anos, os processos de decisão bancária têm sido escrutinados pelas mais variadas partes. A prestação dos bancos nas moratórias parece ter sido um sucesso. Num contexto em que o Aviso n.º 3/2020 do Banco de Portugal enfatiza especialmente as estruturas necessárias para suportar o processo de decisão e em que as decisões têm impactos significativos no curto e longo prazo, é fundamental que as instituições financeiras possam tomar decisões incorporando esses efeitos, para além dos aspetos estritamente escritos na regulamentação.

Nos últimos anos, os processos de decisão bancária, incluindo as decisões estratégicas, algumas operações de crédito de montantes mais elevados e os financiamentos recebidos têm sido escrutinados pelas mais variadas partes. O Aviso n.º 3/2020 do Banco de Portugal enfatiza especialmente as estruturas e formalizações necessárias para suportar o processo de decisão. Faz também uma referência detalhada às expetativas para os processos de planeamento estratégico de longo prazo das instituições, incluindo pressupostos, análises de sensibilidade e objetivos globais e por unidade de negócio.

Adicionalmente, no curto prazo, parece que uma das maiores vitórias recentes do setor bancário foi a decisão e operacionalização de moratórias de crédito em volumes sem precedentes como resposta à pandemia. Neste contexto, em primeiro lugar devemos considerar que esta é uma vitória da transformação bancária dos últimos anos no serviço da sua função de financiamento da economia, particularmente porque o setor escrutinado tem absorvido os impactos da recessão, sem muitas consequências. Em segundo lugar, não devemos ter dúvidas que este sucesso está longe de poder ser dado como uma vitória definitiva. Importa saber quais as soluções centrais e de cada banco para que o fim das moratórias não gere uma deterioração dos rácios de capital e liquidez da banca que derrube este aparente sucesso.

Independentemente da solução central, os mecanismos de governo e decisão dos bancos vão ter a sua prova de fogo. Ao contrário do passado, o enfoque e o desafio é alargado a um número significativo de créditos de montantes mais reduzidos e a situações de grande assimetria causadas pela natureza da pandemia.

Mais do que nunca, deve-se articular e integrar a decisão de curto e longo prazo, a operação especifica e o plano estratégico do banco, isto num mundo em que os mecanismos de reconhecimento da perda são mais acelerados e em que o histórico comportamental de clientes bancários tem consequências severas para o cliente e para o banco. Neste contexto, o principal fator de sucesso é a capacidade de tomada de decisão estruturada, informada e rápida.

Esta decisão estruturada, informada e rápida será tão mais eficaz quanto conseguir integrar objetivos de negócio, de risco e de gestão de capital e liquidez, desde o mais alto nível de indicadores e dos objetivos de longo prazo, até cada decisão e o seu impacto atual e potencial futuro em cada uma destas três vertentes.

Para o fazer, ultrapassando a prova com sucesso, para além da informação de suporte à decisão integrada no ecossistema de negócio, risco e gestão de capital e liquidez, é crucial que o governo da decisão não cesse de procurar e de melhorar esse equilíbrio tripartido, quer seja no estabelecimento de regras, quer seja em cada decisão tomada. É a procura constante por este equilíbrio que trará ainda mais confiança, demonstrando a existência dos processos de planeamento estratégico e das estruturas de decisão prescritas pelo regulador, mas indo para além da mera formalização.

Este equilíbrio contínuo e intrínseco no processo de tomada de decisão é crucial não só nas decisões de curto-prazo, mas para deixar o setor bancário em condições de enfrentar os outros desafios de médio e longo prazo que já lhe são colocados e que terão que ser analisados na mesma framework tripartida, desafios como a transição para um financiamento sustentável ou a alteração contínua de preferências do consumidor.

Artur E Côto, Manager EY, Consulting Financial Services

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