visao.sapo.ptsvicente - 9 abr 08:20

Visão | Ulisses voltou para casa

Visão | Ulisses voltou para casa

Ulisses abriu o livro, a medo, e começou a ler. Quando era menino, o pai lia para ele. O pai, sentado na cama, lendo para ele, é a melhor lembrança que tem. Não apenas a melhor lembrança do pai. A melhor lembrança de toda a sua vida

O rapaz nunca antes passara por aquela rua. O acaso o levara até ali. Avançara, atraído pelas ramagens frondosas de uma mangueira, que se inclinava, como uma matrona curiosa, sobre os altos muros de uma casa burguesa. Talvez tivesse mangas. Ele sabia como derrubar os frutos à pedrada. Um guarda, sentado à porta, adivinhou-lhe a fome. Enxotou-o, agitando contra ele o cabo de uma vassoura:

− Desaparece, vadio. Não queremos aqui gente da tua laia.
.

O pai era militar. Foi morto em combate apenas duas semanas antes do fim da guerra. A mãe começou a beber. Uma noite, disse-lhe:

− Não sei onde arrumar tanta dor.

Não voltou a falar. Ulisses abandonou a escola, e começou a passar cada vez mais tempo na rua. Foi por essa altura que conheceu Elias Suégue, seu professor na arte do pequeno furto. Agora está ali, sentado, lendo As Minas de Salomão, enquanto sente o peito se estreitando com saudades do pai. O velho reaparece. Traz-lhe uma sandes de presunto. Acende as luzes da sala e volta a sair sem dizer palavra.

É quase meia-noite quando o rapaz se levanta. Deixa o livro aberto sobre a poltrona, espreguiça-se e sai pela porta da cozinha. Salta o portão. Perde-se na noite. Regressa no dia seguinte, à mesma hora. O livro está onde o deixou. Senta-se e prossegue a leitura. Desta vez o velho traz-lhe, numa bandeja quadrada, um prato com arroz e feijão, e uma lata de Coca-Cola. Senta-se a vê-lo comer. Nenhum deles diz uma palavra.

Ulisses passa a ir todas as tardes, cada vez mais cedo, a casa do rastafari. Quando termina de ler As Minas de Salomão, o velho sugere-lhe outros romances: A Ilha do Tesouro, As Aventuras de Huckleberry Finn, O Conde de Monte Cristo. Jantam juntos. O velho, que se chama Alexandre Miguel, fala-lhe sobre a vida dos escritores cujas obras lhe deu a ler. Uma noite, na cozinha, enquanto lava os pratos, o rapaz detém-se. Diz:

− Não sei onde arrumar tanta dor.
Alexandre abraça-o. O jovem deixa-se abraçar. Decorrerão anos. Ulisses construirá uma vida. Um dia, um dos filhos fará a pergunta inevitável:

− Tantos livros, pai. Leste-os todos?
− Não. A maioria herdei do teu avô Alexandre. Mas mesmo sem os ter lido todos sei que cada um deles é uma casa para mim.

O menino guardará a frase do pai até um dia a compreender.

(Crónica publicada na VISÃO 1465 de 31 de março)

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