jornaleconomico.sapo.ptjornaleconomico.sapo.pt - 8 abr 19:45

Competir num mundo global (des)equilibrado entre os EUA e a China

Competir num mundo global (des)equilibrado entre os EUA e a China

Com o epicentro do mundo dos investimentos, dos negócios, do consumo e da inovação a rumar para o sudoeste asiático mas a não deixar por completo o continente americano, a Europa arrisca a ser a próxima civilização da periferia. Um debate organizado pelos alunos da Nova SBE.

O mundo é e será durante muito tempo polarizado entre os Estados Unidos como a potência instalada e a China como potência competidora, o que é uma grande diferença em relação ao mundo dos nossos pais e dos nossos avós”, disse o antigo vice-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo de coligação PSD-CDS, Paulo Portas, desde então travestido em analista. “Podemos seguir em frente sem os acordos de defesa com os Estados Unidos? Não, não podemos! Podemos seguir em frente sem o mercado chinês? Não, não podemos”, sintetizou – para se referir ao instável e talvez impossível equilíbrio em que a União Europeia tem de viver em termos do mundo global.

Portas falava no âmbito de um debate organizado pela Nova Economics Club e pela Associação de Estudantes da Nova SBE, com o aval institucional da Nova School of Business and Economics e em colaboração com a Comissão Europeia. O tema em debate esta quinta-feira era ‘Competir num mundo global’ – num debate moderado por Shrikesh Laxmidas, diretor adjunto do JE.

“Joe Biden pode ser um bom presidente dos Estados Unidos”, uma vez que “precisamos de experiência e não de experimentalismo na Casa Branca”. Mas, disse, a questão chinesa não se alterou substancialmente – a não ser “felizmente no abandono do isolacionismo” imposto pelo seu antecessor, Donald Trump”. Esse isolacionismo implicou que a China, entre outros potenciais interessados, “ocupasse o espaço deixado livre pelos norte-americanos”. “O mundo não está à espera” dos Estados Unidos, disse Paulo Portas.

“O impressionante crescimento da China tem um problema com todos os vizinhos na Ásia, incluindo a Rússia e a Índia”. “Assistiremos a que os Estados Unidos venham a construir um novo relacionamento” com os seus parceiros, nomeadamente com a União Europeia. Mesmo que haja à partida alguns problemas – como é o caso, disse Portas, da relação entre Berlim e Moscovo por causa da dependência energética da Alemanha face à Rússia. Mas o antigo ministro aconselhou a que os Estados Unidos não se esqueçam que o presidente chinês, Xi Jinping, é o mais importante líder do país desde Mao Tzé-Tung – num quadro em que a alemã Angela Merkel está de partida, querendo isso dizer que a Europa está a perder representação no panorama global. Até porque “o epicentro do mundo global” desviou-se para o sudoeste asiático. “Temos de pensar a nossa relação transatlântica”, mas também até que ponto irá o acordo de entendimento “neste momento apenas político” entre a União e a China.

Paulo Portas concluiu dizendo que o segredo do futuro está na inovação – área em que a Europa está claramente atrasada, sendo certo que “o excesso de regulação pode ‘matar’ a inovação”.

Carlos Moedas, antigo Comissário da União Europeia e atual candidato à presidência da autarquia de Lisboa por parte do PSD, versou particularmente sobre a inovação e sobre o gap entre Estados Unidos e a Europa nesta matéria, desde logo em termos de investimento. Mas Mas Carlos Moedas disse que os novíssimos focos da ciência – Inteligência artificial, física (ou tecnologia) quântica, desde logo – estão também na ‘casa’ europeia, pelo que não há nenhuma razão para excessos de pessimismo. “É um fator de otimismo”, disse.

“Todas estas mudanças acontecerão nos próximos 20 anos”, disse, “e a inovação será a líder desta mudança”.

Para Margarida Matos Rosa, presidente da Autoridade da Concorrência, a concorrência é indissociável das regras que obrigatoriamente têm de a enformar, desde logo numa ótica de defesa do lado mais fraco – sejam os consumidores, as pequenas empresas ou as economias menos robustas.

Num mundo em mudança constante, a competição entre economias, entre mercados ou entre empresas tem que se manter ‘limpa’. Para garantir isso, “é preciso garantir que não há barreiras” ilegais ou desnecessárias à competitividade. Deve ser função do Estado contribuir para retirar essas barreiras para manter um alto nível de competitividade saudável. “Só assim é possível defender os consumidores” dos ‘desvarios’ das grandes empresas – ou mesmo de alguns governos apostados em subsidiar de forma abusiva uma empresa, um setor ou um grupo de interesses.

A presidente da AdC recordou ainda que a competitividade é o segredo, ou um deles, da recuperação que o mundo tem de empreender depois da pandemia – sendo certo que “o protecionismo” não será nunca a resposta. “Legislação que protege” não será nunca demais, concluiu, mas antes uma forma de perpetuar os valores que estão por trás da formação da União Europeia – e um deles é certamente a inovação.

João Azevedo, economista da Comissão Europeia na Direção Geral da Concorrência, falou sobre o caso Siemens/Alstom, que abalou algumas certezas e com certeza alguns sonhos de alguns europeus. Genericamente, a União Europeia chumbou liminarmente, em fevereiro de 2019, a fusão entre a tecnológica alemã Siemens e o grupo industrial francês Alstom, que era apresentada como a criação de um novo gigante europeu na ferrovia, que beneficiaria (na ótica de ambas) a mobilidade na Europa.

Bruxelas não achou o mesmo e nem quando as duas empresas apresentaram ao executivo comunitário alguns ‘remédios’ a Comissão cedeu às suas pretensões. Como recordou João Azevedo, a Comissão Europeia chumbou a operação por considerar que o negócio iria “reduzir significativamente a concorrência” na Europa na área dos comboios de alta velocidade.

Para o economista, o exemplo – que repete todos os dias mesmo que a uma dimensão menor – permite perceber até que ponto é importante a existência de uma ‘consciência’ concorrencial que mantenha os caminhos do desenvolvimento e da inovação (e também dos negócios) abertos a todos as pessoas e a todas as empresas e não apenas a um pequeno número de interessados. Mesmo que por trás da fusão estivesse a intensão de criar um gigante que pudesse competir com os poderosos conglomerados norte-americanos e, principalmente, chineses.

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