observador.ptObservador - 9 abr 00:05

Photoshop autárquico

Photoshop autárquico

Sinto-me mais segura num concelho de risco elevado do que num que divulga uma taxa de novas infeções de zero. Porque um é real, e sei com o que posso ...

As notícias dos últimos dias dão destaque aos concelhos em risco de não progredir no desconfinamento. “Estes são os 19 concelhos onde o desconfinamento vai ser reavaliado daqui a duas semanas – Expresso 1-04-2021; “Segunda avaliação de risco travará abertura de concelhos” – Público 1-04-2021; “Os 19 concelhos (e a vzinhança) em risco de parar o desconfinamento” – Observador 01-04-2021. Acompanhados por um mapa de risco, com concelhos no vermelho.

E qual a matriz de risco utilizada para definir os concelhos em risco? Não há matriz. Apenas um único indicador, que é o número de novos casos superior a 120 por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias.

E este único indicador é muito insuficiente. Por isso mesmo, a nível nacional e internacional se utiliza uma matriz conjugada de diversos indicadores, como sejam o numero de novos casos/100 mil habitantes (taxa de incidência), o índice de transmissibilidade (Rt), idealmente abaixo de 1, a taxa de positividade dos testes (idealmente abaixo de 3%), o número de testes efetuados por 100 mil habitantes, entre outros. E essa matriz de risco é o que nos permite avaliar de forma adequada e “separar o trigo do joio”.

Analisemos, como exemplo, a situação de Rio Maior, um dos concelhos a vermelho no mapa. De acordo com as informações veiculadas pela Câmara Municipal, existiam, a 31 de março deste ano, 57 casos ativos. De acordo com as notícias na comunicação social, foram detetados 40 trabalhadores numa unidade fabril do concelho numa ação de rastreio. Ou seja, Rio Maior passou para concelho de risco por ter sido efetuada uma ação de rastreio numa panificadora. Um rastreio promovido pela “empresa, em articulação com a DGS, face ao desenvolvimento da pandemia nas zonas limítrofes à implementação da Panificadora” (comunicado da empresa a 24-03-2021) e que testou 257 trabalhadores no dia 22 de março. Grande empresa esta, dou-lhe os meus parabéns! Curioso, é que no comunicado não veio referido que tenha sido em articulação com a câmara municipal ou com a autoridade de saúde local, as quais, aparentemente, só se terão inteirado do surto posteriormente. Ou seja, se não tivesse havido um rastreio proactivo da empresa, Rio Maior já não apareceria como concelho de risco. O que não significa, obviamente, que os casos não existissem e que na ausência de deteção atempada não se fossem disseminando na comunidade. Contudo, a cor no mapa seria mais tranquilizadora e já não existiriam entraves ao desconfinamento. A população estaria com uma perceção de segurança que não corresponderia, contudo, à realidade.

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Quantos concelhos poderão estar na situação de Rio Maior, mas que não tiveram empresas com a mesma proatividade? E quem diz empresas, diz autarquias ou autoridades locais de saúde. Alguns são bastante mais compassivos e não procuram o que não querem encontrar, sobretudo quando ficarão penalizados na progressão do desconfinamento local. Na ausência de indicações claras do Governo/DGS relativas a procedimentos de rastreio na comunidade, o risco é o de se perder novamente o controlo da epidemia. Comparando com leite a aquecer ao lume: inicialmente, o leite já está quente mas não se nota, mas num ápice ferve e transborda. É o que acontece com um vírus pandémico a circular na comunidade.

Num vírus, cuja transmissão se efetua maioritariamente por assintomáticos, só encontramos o que procuramos. Estamos agora como quase nunca estivemos. Numa boa situação, em termos de taxa de incidência e de taxa de positividade dos testes a nível nacional. Estamos, também, com uma mais-valia que é a vacinação em curso, que protegerá os grupos de maior risco. Este não é o momento de vacilar, este não é o momento de colocar interesses locais contra a luta de uma pandemia. Cabe ao Governo e à DGS definir os indicadores para as autarquias: quantos testes devem fazer? Qual a tipologia de rastreios que se devem realizar? Empresas? Escolas? Serviços públicos? Cuidadores informais?

Só perante indicadores bem definidos podemos confiar no mapa de risco por concelhos. Seria mais justo que à taxa de incidência se aliasse a taxa de positividade dos testes e o número de testes efectuados por 100 mil habitantes. Um concelho pode, por exemplo, reportar dois casos, numa taxa de incidência inferior a 60/100 mil habitantes e ficar classificado na zona verde. Contudo, pode acontecer que tenha testado apenas quatro pessoas (taxa de positividade 50%). Colocar no mesmo patamar um concelho proactivo e que trabalha com grande seriedade/responsabilidade (veja-se o caso atual do surto de Portimão) com outros que não o façam, é premiar os maus alunos.

Enquanto não for definida uma matriz de risco concelhia/regional sinto-me bastante mais segura num concelho de risco elevado do que num que divulga uma taxa de novas infeções de zero. Apenas porque um é real e sei com o que posso contar e o outro poderá ser Photoshop.

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