www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 8 abr 18:11

Desconfinar sem medo

Desconfinar sem medo

Esta semana, arrancou a segunda fase do desconfinamento, progressiva, em conta-gotas, mas indiscutivelmente sustentada em factos que nem o mais ortodoxo dos epidemiologistas ou os matemáticos vedetas que vão aparecendo conseguem refutar: há muito menos infeções semanais, há muito menos internamentos que há três semanas atrás, há muito menos doentes em UCI e o número de vítimas mortais diárias desceu para números de agosto do ano passado.

Estas são boas notícias que se devem enfatizar, não para permitir comportamentos mais laxistas e potencialmente perigosos dos cidadãos, mas para lhes mostrar que há futuro e que esse futuro será melhor que o presente. Instilar confiança é regenerar a sociedade e é insuflar a economia, tão necessitada que está de estímulos, incluindo estes de natureza emocional. Curiosamente, nem o Governo nem o Presidente da República parecem alinhar com este espírito positivo, certamente com dores de consciência sobre o excesso de liberalidades permitidas no Natal e que não querem ver repetidas a todo o custo, pelo que, em vez de verem o lado luminoso da situação, procuram incessantemente o mais sombrio: o crescimento das infeções em determinados concelhos ou a subida do Rt, que o vulgar do cidadão não consegue descortinar como é calculado e menos ainda porque sobe, quando todos os indicadores factuais de perigo consistentemente baixam.
Acresce a tudo isto um outro elemento que tem sido estranhamente menorizado nesta avaliação e que é o processo de vacinação. Ora se já temos perto de 1,5 milhões de primeiras doses ministradas e mais de seiscentas mil pessoas com as duas tomas recebidas, sendo que serão na sua generalidade cidadãos mais idosos ou com patologias de risco, a que se juntam os professores e pessoal auxiliar das escolas abertas, admitindo-se que em Abril serão vacinadas tantas pessoas como nos últimos 3 meses, não é de ter em conta que todos estes factos vão reduzir substancialmente a possibilidade desse mesmo universo de portugueses poder contrair a doença e acabar internado ou em UCI? E pegando ainda neste tema dos internamentos, não deveria ter sido esse o primeiro critério a comandar o desconfinamento, ou seja, a pressão sobre o sistema nacional de saúde, em vez do misterioso Rt?
Pergunto-me ainda: e se o Governo, com a imediata aprovação do Presidente da República, atendendo às suas reiteradas declarações públicas, entender voltar atrás no processo de desconfinamento, apenas baseado na subida do Rt acima de 1 ou em alguns concelhos, ainda para mais pouco povoados e de fácil monitorização, desde que apresentem mais de 120 infetados por 100 mil habitantes, mesmo quando se mantiverem em níveis baixos as infeções, os internamentos e a pressão nas UCI, como vai justificar aos proprietários da restauração, do comércio e dos serviços, de tantos e tantos sectores, que vão continuar sem atividade, sem rendimentos e a rápido caminho da falência e da miséria?
Há ainda em Portugal, sobretudo aquelas personagens que se acham investidas de suprema sapiência pela opinião publicada, sejam eles especialistas ou generalistas de coisa nenhuma, que vivem na bolha da função pública, com salário garantido, preferencialmente em teletrabalho, quem não perceba que o país real precisa de respostas, de ver os seus negócios funcionar e regressarem à normalidade, mesmo que seja no limite do risco, pois a alternativa a morrermos da Covid pode ser simplesmente morrermos de fome, com a diferença que seremos muito mais.
Se, por um lado, urge ao Governo e ao Presidente passarem uma mensagem mais positiva e mobilizadora de esperança aos portugueses, há, por outro, que ser exigente nas medidas de controlo que se impõem: controlo das fronteiras, testagem em massa (é admissível que cheguem os testes rápidos às farmácias e não esteja em funcionamento a plataforma digital que receberá as informações para controlo? O que andaram a fazer o Governo e os serviços da Administração Pública neste interregno entre o anúncio e a realização? É o teletrabalho no Estado que mais parece uma suspensão de atividades de muitos serviços que impede a concretização?) e, obviamente, o incremento da velocidade no processo de vacinação, acreditando no reforço substancial das vacinas para serem ministradas já neste mês. Esta é a contraparte, pelo rigor, pela exigência e pela atuação, que deverá corresponder a um processo de desconfinamento que nos traz a luz da normalidade em breve e desfaça de vez o espetro da incerteza e de um estado de emergência que nos encarcera tendencialmente para toda a vida. Desconfinar com responsabilidade, mas sem medo!
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