www.vidaeconomica.ptvidaeconomica.pt - 8 abr 21:06

O que vou comer? A redenção

O que vou comer? A redenção

Estivemos confinados novamente. E novamente, com as limitações do nosso espírito latino, aceitámos a disciplina do distanciamento sanitário e das demais regras de segurança. Aceitámos a maior renúncia de uma Quaresma que foi não podermos visitar os nossos queridos restaurantes.
Falaram-nos de um desconfinamento gradual. Quisemos saber qual, com aquela sofreguidão de quem já não aguenta mais.
Disseram-nos que, no dia a seguir à Páscoa, abriam as esplanadas.
Passámos a ter um único objetivo. Arrastarmo-nos pesadamente até ao dia 5 de abril. Era, está visto, o nosso calvário.
E foi isso que fizemos. Comendo as amêndoas e o cabrito assado, na bolha mais restrita da Família. Não fizemos zooms – estamos farto de zooms, não trocamos abraços por mensagens, não encomendámos take away –, já nem podemos ver o homem da Uber ou da Glovo!
 E eis que o dia 5 chegou. Radioso, límpido, magnífico.
Foi a redenção. A barba esquecida de muitos dias foi feita com esmero. A camisa nova, de boa popeline, que recebemos no Natal ia ser estreada. O duche demorou mais que o habitual e até a água de colónia voltou ao cimo do lavatório para o regresso à vida ativa.
 Escolhemos meticulosamente a esplanada. Fomos 4. Curioso que na Família pequena somos 4 e nenhum dos 4 era dos 4 que escolhemos. Estaremos também fartos da Família? Claro que não, são uns queridos, mas a verdade é que a nossa cabeça precisa de distanciamento social das mesmas exatas pessoas de sempre.
Encontro-me com os outros 3 amigos. Risos incontidos, cotoveladas cruzadas, acenos com as mãos em sinal de prece. Parecíamos uns namorados no primeiro encontro. Nervosos, a rirmo-nos de tudo e de nada.
Chegámos ao local aprazado. Conhecido por ter um francesinha de morrer. O que é uma francesinha de morrer? Pois, o segredo principal está no molho. Que deve ser feito primeiro com estrugido e depois com um caldo denso de cozer a carne. Uma carne forte, tipo rabo de boi. Depois, por esta ordem, polpa de tomate qb, mostarda e molho inglês – uma colher e 3 golpadas –, ingredientes fundamentais do molho. No final, 3 vagens secas de piripiri desfeitas. Se o molho estiver demasiado grosso, um copo de cerveja. Deixá-lo homogeneizar lentamente para que os sucos todos se equilibrem. Passar na varinha mágica. Deve ficar límpido, vermelho escuro, ligeiramente brilhante.
Do outro lado da receita, o pão. De forma, cortado grosso e levado à torradeira no momento certo do empratamento, para que fique firme e possa ser achatado com a palma de mão. Depois, o conteúdo, um bife pequeno do lombo (pouco mas bom) mal passado, fiambre, linguiça picante, um paio de boa estirpe. E, finalmente, o queijo. Fundamental que seja muito e que seja bom. E para isso precisa de ter gordura. Nada de mariquices com os 50% de gordura. Não estrague um prato que há-de ser sempre uma bomba calórica. Espere pelos cincos de Abril da vida, mas quando comer, coma de verdade!
 Perceberam que Vos ensinei a fazer francesinha? Faltou o ovo, sempre no fim, e as batatas fritas que se devem constipar (se não sabe o que é, escusa de ler gastronomia!).
Voltemos à redenção. Chegámos, como Vos dizia. Uma fila incomensurável para as mesas. Oh, que importa, sentir o bulício dos parceiros de fila e a forma sôfrega, mas feliz, com que esperavam a sua vez, dava-nos a nós o conforto todo. Falávamos sem parar. De tudo e de nada. Rindo sempre como se todas as palavras que saíam das nossas bocas mascaradas fossem, elas próprias, cheias de graça.
45 minutos. Noutra altura, alguém recordou, já teríamos virado a mesa. Mas não, estávamos bem. Ouvíamos os talheres a bater na porcelana, o ruído alegre de todos e só isso bastava para nos sentirmos parte de algo por que tanto ansiávamos.
Chegou o momento, uma hora depois.
Sentámo-nos, quase com emoção.
O pão estava na mesa e a manteiga também. Pedimos cerveja gelada e uma botifarra para começar. Demorou horrores e a cerveja estava meio mornita. Mas que importa? Estávamos lá.
Meia hora para vir a francesinha. Não vinha a preceito, como é timbre da casa. Parecia que todos tinham desaprendido de viver. Que havia que fazer outra vez o caminho. Juntos, claro!
Não ouvimos de lado nenhum uma só reclamação. Antes víamos e ouvíamos risos, alegria, vida!
Estávamos de regresso, nunca mais nos tirem isto. É a nossa vida, é a nossa redenção!



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