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Visão | “O trickle-down é um mito”

Visão | “O trickle-down é um mito”

Um dos autores de um novo estudo sobre os efeitos de cortes de impostos sobre os mais ricos explica à EXAME as suas conclusões

Escrevemos na EXAME sobre nova evidência de que cortar os impostos dos mais ricos não traz benefícios para a totalidade da economia. Aqui segue a entrevista com Julian Limberg, professor no King’s College London sobre o seu estudo “As Consequências Económicas de Grandes Cortes de Impostos para os Ricos”, assinado com David Hope, que serve de base ao artigo publicado na EXAME.

Segundo o vosso estudo, o que acontece quando um governo corta os impostos dos mais ricos?

No nosso estudo, não encontramos efeitos robustos e significativos de cortes de impostos para os ricos no desemprego e no crescimento económico. O que acontece essencialmente é que a desigualdade aumenta – os 1% mais ricos da sociedade ficam ainda mais ricos. 

O que significa isso para a economia “trickle-down”? É um mito?

Economia “trickle-down” normalmente significa que cortar impostos para os mais ricos estimula a economia e conduz a mais emprego. O nosso estudo não encontra nenhum apoio para essas ideias. Em conjunto com estudos que têm conclusões semelhantes, acho que é seguro dizer que é um mito. 

Acho que é seguro dizer que [o trickle down] é um mito

Neste momento de crise, ou durante a recuperação, faria sentido aumentar os impostos sobre os mais ricos?

Embora não tenhamos olhado para os efeitos de aumentos de impostos – simplesmente porque quase não houve grandes subidas nos últimos 50 anos –, os nossos resultados sugerem que os responsáveis políticos não devem ficar excessivamente preocupados com as consequências económicas de aumentar impostos sobre os mais ricos no pós-Covid-19. Impostos mais altos sobre os ricos podem ser uma boa forma de gerar receitas para pagar os custos provocados pela pandemia. 

Devemos continuar a depender essencialmente de impostos sobre os rendimentos ou deveríamos considerar tributar a riqueza?

No paper, olhamos para um indicador abrangente, que inclui diferentes impostos. Portanto, não diferenciamos entre tipos de impostos. Impostos sobre a riqueza e impostos sobre o rendimento não são mutuamente exclusivos. Dado que, nas últimas décadas, a carga fiscal tem caído substancialmente, tanto para os rendimentos como para a riqueza, aumentar ambos poderia ser uma opção interessante para os responsáveis políticos.

Dado que, nas últimas décadas, a carga fiscal tem caído substancialmente, tanto para os rendimentos como para a riqueza, aumentar ambos poderia ser uma opção interessante para os responsáveis políticos

Mesmo quando o alvo são os ricos, os impostos tendem a ser um tema pouco popular. Porquê?

Depende do tipo de imposto. Muitas sondagens recentes têm mostrado que os impostos sobre riqueza e rendimentos de capital costumam ser bastante populares – mesmo entre eleitores conservadores. Impostos sobre heranças, por outro lado, são mais impopulares. Além disso, um fator crucial para perceber se impostos mais altos sobre os ricos são apoiados pelos eleitores é saber se eles olham para estas reformas como justas. Se quem propõe impostos mais altos para os ricos conseguir usar argumentos convincentes de que estas subidas ajudarão a restaurar a justiça orçamental no pós-Covid, esse apoio irá aumentar ainda mais. 

Em Portugal, dois partidos defendem uma “flat tax” para o rendimento. Qual seria a consequência disso?

A nossa investigação sugere que reformas desse género aumentam a desigualdade ainda mais, trazendo poucos benefícios económicos.

NOTA: artigo publicado originalmente na edição impressa da EXAME, de fevereiro de 2021.

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