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António Carlos Rodrigues: “Percebemos que Portugal é pequeno demais”

António Carlos Rodrigues: “Percebemos que Portugal é pequeno demais”

António Carlos Rodrigues, 47 anos, líder da Casais, é um dos cinco nomeados para o prémio EY Entrepreneur of the Year. De Tibães a Harvard, o gestor cruza cada vez mais tecnologia e construção.

António Casais Rodrigues lidera o grupo Casais, fundado em Braga nos anos 50 do século passado, mas a história começa muito antes. “Se pensar bem, acho que comecei aos 10 anos. As férias de verão eram no escritório e como a escola era próxima, o fim do dia era sempre no escritório, onde fazia os deveres. Tenho essas memórias, eu e os meus primos, durante a adolescência. ��amos organizar recibos de trabalhadores, fazer contas de tarefeiros…”, recorda ao ECO o gestor, um dos cinco nomeados para o prémio EY Entrepreneur of The Year.

Apesar desse treino espontâneo e de ser o neto mais velho, “nunca ninguém fez pressão para que fosse para o negócio ou que estudasse engenharia civil”. O que, no entanto, veio a acontecer.

Estive sempre muito ligado às tecnologias de informação. No 10.º e 11.º estive muito ligado à informática e estive para ir para Sistemas de Informação, um curso muito conceituado aqui no Minho, e no último dia decidi ir para Engenharia Civil”. Nem António Carlos Rodrigues sabe exatamente o motivo da decisão, ainda que tudo estivesse pronto para ele. “Quando se cresce a dizer que está ali o futuro, este vai ser o futuro líder, isso de alguma forma pesou, sentimos alguma responsabilidade“.

Durante o meu percurso como estudante de engenharia cheguei a fazer férias em obra”, conta. “O conhecimento e o ter nascido no negócio ajudou e fazia alguma diferença, por isso não sentia que era uma área que não queria, estava perfeitamente alinhada com o meu trajeto“.

Quando António Carlos Rodrigues entrou, finalmente, para os quadros da Casais, a empresa não tinha engenheiros há tanto tempo assim, recorda. Foi no início dos anos 90, ele licenciou-se em 1995 e a empresa tinha começado um ano antes o processo de internacionalização. “A geração que lá estava tinha mais cinco anos do que eu, porque também não havia uma tradição de a engenharia estar nas empresas“, considera.

Neste momento, a tecnologia está a entrar de tal modo no negócio que me sinto mesmo na minha praia, ou seja, tenho o conhecimento do negócio do conhecimento da engenharia civil mas também o da tecnologia.

Se há algo que marca o percurso de António Carlos Rodrigues é o seu interesse pela tecnologia. Ainda jovem, aprendeu a programar num computador oferecido pelos pais. Na universidade, “fomos a primeira geração a trabalhar com autocad e excel e a usar os computadores de forma mais extensiva“. Esse interesse pela informática pontua o seu percurso e é algo que está sempre na linha de horizonte, como explicará.

Quando cheguei à empresa, eu era o único que usava um computador para fazer tudo e mais alguma coisa. Dai para a frente todos começaram a usar”, diz, e acrescenta: “Eu já tinha feito, ainda estudante do secundário, o primeiro programa de gestão de clientes da empresa“.

É engraçado como agora se cruzaram os dois mundos“, reflete, via Teams, em entrevista ao ECO. “Neste momento, a tecnologia está a entrar de tal modo no negócio que me sinto mesmo na minha praia, ou seja, tenho o conhecimento do negócio do conhecimento da engenharia civil mas também o da tecnologia“.

Como é que isto pode acontecer? “Os edifícios que usamos não são um bom interface para o ciberespaço, por isso, só esta transformação, como dar mais conectividade, já dá imenso trabalho, é uma área de especialização per se“, começa por dizer. No negócio, vê um cruzamento de vários fatores. “A construção não inovou nem aumentou a produtividade nos últimos 30 anos, porque, mundialmente, também não tinha os incentivos para tal. O que permitiu que não existisse esse aumento de produtividade foi o setor poder continuar a assentar num princípio de mão-de-obra e do recurso à mão de obra onde ela fosse o mais barata possível. Isso permitiu às empresas deixar de lado o “como se podem tornar mais produtivas”, diz. “Chegámos ao fim desse ciclo“, vaticina.

Também as fronteiras – por questões de cibersegurança e agora por causa da pandemia – limitam ainda mais essa dinâmica. As empresas estão impossibilitadas de ir buscar essa mão de obra e para conseguir manter produtividade só têm um caminho, ser mais produtivas com ferramentas que permitem atrair camadas mais jovens para o setor. “Todos os anos estamos a perder bons profissionais e não estamos a conseguir substituí-los. Hoje não vejo os jovens com interesse na construção. Se eu disser que tem de pegar num tijolo e fazer argamassa e andar no meio do cimento, ele não vem. Se eu disser que ele vai pegar num laser e num x-ato e passar a usar essas duas ferramentas para fazer uma parede, ele já se motiva – tudo tem que ver com as tecnologias e as soluções construtivas“, considera.

Tenho dito isto: tenho mais receio de uma indústria automóvel, naval ou de aviação a entrar no nosso espaço do que dos construtores tradicionais. Eles já têm a tecnologia e o digital e já têm a capacidade de execução industrializada de peças e componentes.

Outras ferramentas digitais estão a entrar na construção e a torná-la mais eficiente. “Ajudam a projetar e a fazer uma verdadeira integração da indústria. Pela primeira vez começamos a ter um conjunto de profissionais que desenham, em que esses desenhos conseguem ser colocados à disposição de quem executa a obra de uma forma integrada. Estamos a encurtar e a integrar o tempo entre desenhar e executar“, afirma.

Existem ameaças no seu negócio, e António Carlos Rodrigues é o primeiro a enunciá-las. “Isto não é novo na indústria automóvel ou naval ou aeronáutica. Tenho dito isto: tenho mais receio de uma indústria automóvel, naval ou de aviação a entrar no nosso espaço do que dos construtores tradicionais. Eles já têm a tecnologia e o digital e já têm a capacidade de execução industrializada de peças e componentes. De paredes. São é mais pequenas. Um carro é em tudo igual a uma casa, mas com rodas“.

Calcula-se que o processo se torne mais rápido e, por isso, mais barato. “Um dos maiores custos na construção tem que ver com a ineficiência de todo o processo de execução e se em desenho digital conseguirmos eliminar as dúvidas e conseguirmos a compatibilização das várias disciplinas, o custo diminui“. Com a tecnologia do 3D também se aproximam dos clientes, que o percebem melhor. “Isto também acaba com um rótulo muito injusto na construção de que os empreiteiros enganam os cliente, o que não é verdade. É um problema de linguagem e de transmissão do conhecimento“.

A Casais está presente em 17 territórios, da França à delegação recém-inaugurada no Gana, passando pela Rússia e Cazaquistão, em países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, o que, segundo o CEO da Casais, lhes trouxe conhecimento. “Quando entrámos na Alemanha em 1994 fomos expostos a tecnologia de construção muito mais avançada do que a usávamos em Portugal, conseguimos com o que aprendemos na Alemanha aumentar a nossa competitividade e transportámos para Portugal e outros países“. Outra valiosa aprendizagem, segundo o engenheiro: o BIM – Building Information Modeling, usado na Inglaterra obrigatoriamente desde 2016, que a Casais incorporou nas suas práticas. “Fomos a primeira empresa a lançar o conceito de pré-construção, ao mesmo tempo que franceses e americanos”, diz. “Trata-se de uma preparação para a construção, adaptando os desenhos aos processos construtivos da empresa com os seus próprios métodos e fornecedores“.

A Casais tem duas das suas três maiores obras em curso: o Hospital de Angola, em Luanda, uma obra de 190 milhões de dólares; um conjunto de seis torres habitacionais em Gibraltar, no valor de 160 milhões de libras. “Estas também vão quebrar outro recorde, são os edifícios mais altos que o grupo construiu até à data, são 30 pisos na torre mais alta. Isto é incremental, quanto mais fazemos mais conseguimos fazer”, afirma António Carlos Rodrigues. Em Portugal, a maior construção da empresa está em Porto Santo, o Columbus Resort, uma encomenda de mais de 100 milhões de euros, que, “apanhou a crise de 2008”. “Fez-nos passar dificuldades, fez-nos ter ali um incobrável com muito significado, mas não deixa de ser a maior obra em Portugal“.

Esta mesma crise de 2008 fez a empresa rever o seu negócio, diz António Carlos Rodrigues. Até essa altura, 70% da atividade da Casais estava em Portugal e 20% era internacional. De 2011 para 2012, inverteram as posições – 70% está fora. “A crise foi boa para nós porque percebemos que Portugal é pequeno demais”, explica. “Somos mais gestores de recursos humanos, construindo onde é preciso construir. Temos de ser muito ágeis na mobilização de pessoas“, defende. Assim, por exemplo, dirigiram a competência adquirida para construir hospitais para outras zonas do globo.

Temos perfeitamente articulado o que é a cultura Casais e estamos a conseguir uma permuta de recursos de um país para o outro e as pessoas, de um dia para o outro, começam a trabalhar.

Em 2019, a Casais teve uma faturação de 530 milhões de euros. Em 2020, contavam chegar aos 600 milhões, mas a pandemia veio quebrar essa trajetória ascendente. “Houve países muito afetados, outros pouco e outros ainda superaram a faturação prevista. Portugal foi um deles. Tínhamos previsto que 2019 seria um ano de crescimento em Portugal, contratámos meios, reforçámos equipas, mas a faturação não aconteceu em 2019, mas sim em 2020”, detalha. Contas feitas, no ano do primeiro confinamento, “em termos de saldo fez com que ficássemos parecidos com 2019, apenas menos 4%, o que é francamente bom, porque 2019 foi o nosso melhor ano de sempre“, diz. Ficaram nos 520 milhões de euros.

Este ano, com incerteza mas com a perspetiva de investimento público e a expectativa da abertura do turismo, ainda que a Casais antecipe algum atraso, António Carlos Rodrigues assegura que já estão “a pensar no ciclo de 2022-2023. Antecipamos que o mercado vai crescer e estamos a fazer investimentos, um upgrade de sistemas de informação e incorporação de tecnologias“. O grupo põe assim em prática a visão de gestão traçada em 2009 e reforçada em 2015, o melhor ano da empresa até então e o momento escolhido pelo CEO para ampliar a sua formação na Universidade de Harvard.

O CEO da Casais, terceira geração da família na empresa, é neto do fundador. “Fui com ele às obras, vivi muito do que se passava no escritório, assistia e no papel de espectador aprende-se muito“. António Fernandes fundou a empresa em 1958 e em 1991 adotaram definitivamente a alcunha desta família muito ligada ao Mosteiro de Tibães, Braga, onde nasceu a bisavó de António Carlos Rodrigues. “O meu bisavô era conhecido por mestre Casais”. Um historiador na família pesquisou os registos históricos e localiza uma primeira referência em 1840 – Maria Casais. “As pessoas que trabalhavam nas parcelas de terras eram o ‘casales’, portanto a gente presume que eles eram dos casais à volta do mosteiro beneditino”, diz António Carlos Rodrigues.

A empresa mantém-se familiar, mas, para já, a quarta geração – em que o mais velho tem 16 anos – ainda está fora do negócio. “O que queremos é fazer deles bons profissionais, sem pressão nenhuma. Se apostarmos na boa educação deles, isso é bom para eles e bom para a família. Se quiserem um percurso fora do negócio estão bem instruídos, se quiserem vir para o negócio, também é excelente porque são bons profissionais”.

Neste momento, a holding Casais tem 10 administradores – os cinco irmãos e cinco membros da comissão executiva. Em 2018, ocorreu a sucessão e passou a ser a terceira geração a detentora do capital, mantendo os cinco ramos familiares nos órgãos de decisão. Em paralelo nasceu o conselho de orientação estratégica, onde os cinco ramos da família estão, tal como na fundação que nascerá em maio, focada nas alterações climáticas. Também faz parte da visão de António Carlos Rodrigues para a empresa. “Estamos a assumir um compromisso de usar a madeira como um dos elementos de construção, acredito que em 2030 um terço da construção vai ser madeira”.

Sobre a nomeação para o prémio EY Entrepreneur of The Year, António Casais Rodrigues diz que líder e companhia se fundem. “O prémio é dirigido às pessoas, mas sinto que é o reflexo do que conseguimos construir enquanto organização. É um espelho das pessoas e da equipa que temos”.

Com o delinear da visão da Casais, a empresa tornou-se também mais profissional e traçou uma cultura organizacional para os seus 4500 trabalhadores. “Temos perfeitamente articulado o que é a cultura Casais e estamos a conseguir uma permuta de recursos de um país para o outro e as pessoas, de um dia para o outro, começam a trabalhar”, afirma. “É muito gratificante estar num sector que transforma a vida das pessoas, que faz coisas que vão para lá da própria vida, dizer que construímos o Pavilhão de Portugal em Hanover e que estamos agora no Dubai”, afirma António Carlos Rodrigues.

Este ano, além de António Carlos Rodrigues, estão nomeados para o prémio EY Entrepreneur of The Year, Guy Villax (Hovione), Rupert Symington (Symington), Carlos Mendes Gonçalves (Mendes Gonçalves) e António Oliveira (OLI – Sistemas Sanitários).

O EY Entrepreneur of The Year vai na sua 8.ª edição em Portugal e já distinguiu empresários como Belmiro Azevedo (Sonae), Carlos Moreira da Silva (BA) e António Rios Amorim (Corticeira Amorim). Começou a ser entregue em 1986 nos EUA e, desde então, chegou a outros territórios. Entre os vencedores estão gestores como Michael Dell (Dell Computers), Jeff Bezos (Amazon), Jeff Weiner (LinkedIn) ou Serguei Brin/Larry Page (Google). Os vencedores regionais disputam um prémio mundial. A última vencedora foi a empresária indiana Kiran Mazumdar-Shaw, CEO e fundadora da Biocon Limited.

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