observador.ptObservador - 8 abr 00:00

Fossemos nós um país sério

Fossemos nós um país sério

Uma das retóricas que se gosta de impingir, é que o povo português sempre foi um povo que se insurgiu contra aqueles que, de um forma ou outra, conduz...

Nós por cá, Portugueses de gema, teimamos em afirmar que somos um povo magnífico. Talvez até tenhamos sido em várias ocasiões. Gostamos de admirar D. Afonso Henriques, Camões, Sá Carneiro e tantos outros como símbolos de superação, patriotismo e resiliência. Mas a verdade, e por muito que nos custe, é que nós, Portugueses subordinados ao Grande Estado, nunca fomos, e nunca seremos, um povo que bate o pé aos autoritarismos e às hipocrisias de quem nos governa. A história relembra-nos isso.

Uma das retóricas que se gosta de impingir, é que o povo português, com todas as suas virtudes e defeitos, sempre foi um povo que se insurgiu contra aqueles que, de um forma ou outra, conduziam o país à ruína. Lamento, e lamento mesmo, informar que essa mensagem não é mais que uma invencionice, elevada, muitas vezes, a mito.

Um dos exemplos disso é o 1º de dezembro de 1640. Lembro-me bem, até porque para felicidade minha não foi há muito tempo, que este acontecimento histórico é lecionado nas escolas portuguesas de uma forma romantizada, levando os estudantes a imaginar que foi o povo o grande sustentáculo da restauração da independência. Gosta-se de pregar que a revolução contra a governação castelhana foi um movimento protagonizado pelo povo que, fatigado e descontente, saiu à rua, acompanhado por um conjunto de nobres, e depôs Filipe III de monarca. Permita-me o leitor, mais uma vez, lamentar, pois nada disto é verdade. O que aconteceu, pura e simplesmente, foi que, a dada altura, a nobreza portuguesa se viu obrigada a ir lutar para Flandres, uma guerra que acreditava não ser sua. Até àquele momento, a nobreza portuguesa não vira razão alguma para uma “revolução”. Aproveitando uma rebelião na Catalunha, conhecida como a Guerra dos Segadores, os nobres portugueses viram uma oportunidade para restaurar a independência, fugindo, dessa forma, à convocatória castelhana para se deslocarem até Flandres. É claro que existem outras considerações e fatores importantes. Mas, no fundo, o que é fundamental reter é que o que despoletou o movimento foi o descontentamento dos “40 Conjurados” – número fictício e simbólico – contra as políticas de guerra. O povo, descontente, pobre e reprimido, limitou-se a gritar “vivas” ao novo Rei. No dia seguinte, o sol nasceu às 07:40 da manhã e foi tudo trabalhar outra vez.

A revolução do 25 de Abril de 1974 é estranhamente semelhante ao ocorrido em 1640. Também naqueles tempos, um grupo de militares, descontentes com o decorrer da guerra colonial e contra as políticas de promoção na hierarquia militar, iniciou uma revolução contra o regime do Estado Novo. Da mesma forma que os “40 Conjurados” aproveitaram uma crise militar como pretexto de insurreição, também os capitães de abril o fizeram. Marcello Caetano estava frágil, desgastado e sem aliados. Os sinais de que o regime estava em decadência eram notórios – demissão de Costa Gomes e Spínola – e, por isso, os capitães e os oficiais subalternos aproveitaram a oportunidade. A população, à semelhança do que aconteceu no dia 1 de dezembro de 1640, limitou-se a sair à rua. O povo, descontente, pobre e reprimido, limitou-se a gritar “vivas” ao novo regime. Não se juntou à revolução: juntou-se antes à festa que decorria pelas ruas de Lisboa. No dia seguinte, o sol nasceu às 07:40 da manhã e foi tudo trabalhar novamente.

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Estes dois exemplos personificam aquilo que é ser português. Tal frase acredito que não seja fácil de digerir. Confesso que me chateia escrevê-la. Temo, ainda assim, que corresponda totalmente à verdade. Hoje, no ano de 2021, temos, como certamente o leitor já reparou, andado a viver num Estado rígido, (relativamente) autoritário e sem respeito pelos seus cidadãos. Nos últimos dias, um estrangeiro gozou de mais direitos em Portugal do que um cidadão nacional: pôde-se deslocar como quis, para onde quis, quando quis. Nós por cá, Portugueses de gema, éramos multados se atravessássemos o nosso concelho vizinho. Livremo-nos de comer gomas na rua, não vá acontecer o pior e sermos multados pela GNR. Comer uma sanduíche no carro, isolado, sem pôr em causa a saúde de ninguém? Bem, já sabemos que a multa é de 200 euros.

Nos Países Baixos, o povo manifestou-se contra as políticas sufocantes do governo. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel voltou atrás na decisão de “cancelar” a Páscoa, após a forte contestação popular. Por estes lados, alguma da comunicação social, o “ministério da propaganda” do atual Governo, diz-nos, dia após dia, que nos devemos portar bem e seguir à risca aquilo que nos é imposto. Quem discute as medidas do Governo, é negacionista; quem se questiona, é irresponsável; e, por último, quem levanta a voz, é arrasado pela classe “intelectual”.

Nós, por cá, os Portugueses de gema, não nos revoltamos. Estamos sempre à espera que alguma coisa aconteça. E quando acontecer, digam-me, porque aí, sou o primeiro a sair de casa.

Para dar “vivas”, claro.

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