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Os números

Os números

1. Os números não mentem: um mês de confinamento bastou para recuar vários meses no número de infetados (o número de internados nos hospitais e de mortes também baixou, mas a evolução é mais lenta).

E depois do clamor científico e político para que tudo fechasse, sem perder demasiado tempo a pensar nas consequências, aos poucos se vai instalando o clamor científico e político para que tudo reabra, sem que se perceba o quê e com que calendário. A pandemia consumiu um ano das nossas vidas e começa a ser penoso perceber que cientistas e políticos ainda não foram capazes de definir critérios a partir dos quais uma determinada atividade tenha de ser suspensa, ou qual o patamar a partir do qual deve ser retomada. Fica a desconfortável sensação de que o saber científico e a decisão política se alimentam (e alimentam) do clamor social, em regra movido mais pela emoção do que pela razão.

2. Os números não mentem: duas semanas de confinamento em janeiro foram suficientes para que 22 mil pessoas perdessem o emprego. E assim, no final do mês, havia 424 mil pessoas inscritas nos centros de emprego. São pessoas, tal como os doentes internados ou os mortos. E é apenas a ponta do icebergue. Há outros tantos que não constam da estatística, seja por causa dos critérios de "limpeza" dos registos, seja porque são precários ou biscateiros do mercado informal. Gente que engrossa as filas da fome que se multiplicam nas nossas cidades.

3. Os números não mentem, igualmente, quanto à inqualificável lentidão da justiça. Maria dos Anjos esperou 27 anos por uma decisão sobre as complicações do parto que fizeram do filho Pedro um deficiente profundo (morreu aos 22). Um tribunal deu-lhe razão. Anos depois, um tribunal de apelo voltou a dar-lhe razão. Uma mão cheia de recursos e mais uns quantos anos, e o Supremo ilibou toda a gente. Agora, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, sem se pronunciar sobre a negligência médica, obriga o Estado a pagar uma indemnização de seis mil euros por danos morais. Vou repetir, passaram 27 anos.

*Diretor-adjunto

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