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Visão | Louise Glück: Um quarteto de livros da Prémio Nobel da Literatura 2020

Visão | Louise Glück: Um quarteto de livros da Prémio Nobel da Literatura 2020

Desconhecíamos-lhe nome e palavras em português até o Prémio Nobel da Literatura 2020 a revelar. E, coisa raríssima, quatro livros de Louise Glück chegam agora, de uma só vez, às nossas mãos

“Nem tudo o que é vivo exige/ a luz da mesma maneira. Há os que entre nós/ criam a sua própria luz: uma folha prateada/ como caminho trilhado por ninguém, um lago/ raso cor de prata sob o escuro dos grandes áceres. / Mas tu já sabes isso./ Tu e os outros que pensam/ que vivem buscando a verdade e que, por isso, amam/ tudo o que é frio.” É nas primeiras páginas d’ A Íris Selvagem (1992) que se encontram estes versos. E há uma exalação de reconhecimento, um consolo perante esta paisagem intimista e aparentemente evocadora da Natureza: uma voz à roda do seu quarto metafórico, mas capaz de interpelar os outros, e que se mostra indiferente a fazer poesia para se fazer ouvir mais alto.

Louise Glück, 77 anos, voltará a mencionar áceres, e campainhas-de-inverno, gavinhas de clematites azuis, papoilas vermelhas, flores silvestres e ervas daninhas e pétalas que “parecem flutuar na relva brilhante”. Mas não é a experiência dos jardins familiares ou da Natureza transfiguradora que a poeta privilegia: o seu “deleite é o assombro”, e ela confessa “como está belo e sensual o mundo,/ com tantas coisas que não me pertencem”; mas nos seus poemas desenterram-se emoções, há uma aguda consciência de si, há histórias e falhanços. “Não esperei nunca/ tornar a acordar, sentir/ na terra húmida o meu corpo/ capaz de reagir de novo, de se lembrar/ depois de tanto tempo como abrir-se/ de novo à luz fria/ da mais primeira Primavera – / com medo, sim, mas de novo entre vós/ chorando sim arriscando a alegria/ ao vento agreste e nu do mundo novo.”

A Íris Selvagem (Relógio D’Água, 144 págs., €18) tem tradução de Ana Luísa Amaral Uma Vida de Aldeia (Relógio D’Água, 160 págs., €18) tem tradução assegurada por Frederico Pedreira Averno (Relógio D’Água, 144 págs., €18) é traduzido por Inês Dias Noite Virtuosa e Fiel (Relógio D’Água, 144 págs., €18) foi traduzido por Margarida Vale de Gato

Desconhecida em tradução portuguesa até agora, poeta com vários galardões além do Nobel que lhe elogiou a “voz inimitável, a beleza austera e a capacidade de transformar a existência individual numa experiência universal”, Louise Glück oferece-se num registo de irredutível honestidade: “Esperas a vida toda pelo momento oportuno./ Depois o momento oportuno/ revela-se uma ação consumada.” Esta consciência de atravessar o tempo e o espaço, as memórias e os outros (os pais, o “trémulo companheiro”), como quem caminha da primavera para o inverno da vida, refletem-se nos outros três livros agora editados. Leia-se Aproximação do Horizonte, em Noite Virtuosa e Fiel (2014): “Não tenho herdeiros,/ no sentido em que nada tenho de substancial/ para legar./ É possível que o tempo reveja esta desilusão./ Quem me conhece bem não achará aqui novidade;/ empatizo com eles (…) Serei breve. Assim termina,/ diria a hospedeira,/ o nosso curto voo.”

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