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Da cortiça ao cérebro humano: Ana Rita Araújo é a Jovem Biofísica 2021

Da cortiça ao cérebro humano: Ana Rita Araújo é a Jovem Biofísica 2021

O galardão, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Biofísica, é referente a um artigo que detalha a utilização de dois compostos da casca do sobreiro no combate à doença de Alzheimer. A investigação está na fase inicial, mas o que já se sabe pode se

Pode a cortiça ajudar no combate à doença de Alzheimer? A resposta, apesar de afirmativa, é complexa. E pode levar-nos numa viagem que tem como ponto de partida dois compostos da casca do sobreiro, sendo o destino o cérebro humano. Ana Rita Araújo, investigadora de 34 anos no grupo 3B’s (Biomateriais, Biodegradáveis e Biomimética), da Universidade do Minho, começa por explicar: “Estes compostos, classificados como polifenóis, chamam-se vescalagina e castalagina. Já são referidos na literatura [científica] há algum tempo. Começámos por observar e identificámos que tinham uma boa actividade antioxidante.”

Por isso, esses compostos poderão “ser usados como alternativa no tratamento da patologia ou, mais especificamente, numa das características”, o péptido beta-amilóide, “o principal constituinte das placas de amilóide no cérebro dos doentes de Alzheimer”. Essas placas depositam-se “em cima dos neurónios”, impedindo as sinapses, deixando de haver, por exemplo, “a troca de nutrientes”. Mas isso não quer dizer que este péptido seja o “principal causador” da doença — ainda “não há consenso na comunidade científica” relativamente ao assunto, ressalva a investigadora, natural de Guimarães.​ 

Foto Ana Rita Araújo tem 34 anos e é investigadora no grupo 3B’s Manuel Florit

A boa notícia é que esse processo poderá ser revertido com a ajuda dos compostos da cortiça, tal como é detalhado no artigo Vescalagin and castalagin reduce the toxicity of amyloid-beta42 oligomers through the remodelling of its secondary structure, que valeu a Ana Rita Araújo o Prémio Jovem Biofísico 2021, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Biofísica. “É um reconhecimento de um trabalho que durou algum tempo. Foi uma luta de cinco anos”, conta ao P3. O artigo foi publicado no final de 2019 e desenvolvido no âmbito da sua tese de doutoramento. 

Em Junho, a investigadora irá apresentá-lo virtualmente no Congresso da Sociedade Portuguesa de Biofísica, que este ano decorrerá em Coimbra. Não queremos, por cá, dar spoilers de tudo o que será falado nesse momento, mas Ana Rita explica, mais detalhadamente, qual o papel da cortiça nesta aventura. Os compostos “são facilmente obtidos pela extracção directa em água a 60ºC durante seis horas”, cujo procedimento fora já “anteriormente desenvolvido” pela investigadora e pelo colega Ivo Aroso.

Findo esse processo, passa-se para o objectivo principal, que é “remodelar a organização deste péptido para que se torne menos tóxico para as células neuronais”, acrescenta a vimaranense. Provada a inibição da toxicidade, é preciso fazer os compostos chegar ao cérebro, ultrapassando a barreira hematoencefálica, a guardiã que resguarda o sistema nervoso central. “Só passando esta barreira é que podemos atingir as células neuronais e as placas neuríticas ricas nesse péptido”, justifica.

A natureza, o envelhecimento… e a dança

Ainda há muito para se perceber acerca da doença de Alzheimer, do papel da natureza no tratamento de patologias como esta e, claro, do próprio cérebro — “mas isto pode ser um primeiro passo”. “Estendemos a esperança média de vida com toda a evolução e tecnologias associadas e cada vez mais conseguimos antecipar. Só que há muito pouco que possamos fazer no que diz respeito ao envelhecimento”, diz. Ainda que seja reconhecida a inevitabilidade das dores de ossos que surgem com o passar dos anos, a investigadora acredita que há “dificuldade em reconhecer” o envelhecimento cognitivo. É, sublinha, “tão igual ficar envelhecido no cérebro como ter dificuldades de locomoção por causa da anca, por exemplo”.

Fazer com que as dificuldades associadas ao envelhecimento sejam menos acentuadas é “uma das maiores motivações da ciência hoje em dia”, aponta, “e os custos associados são muito grandes”. Junta-se a isso o envelhecimento do mundo ocidental, que “exige aos sistemas de saúde uma grande capacidade de combate”. E é por isso que, tanto no 3B’s como noutros laboratórios do país, se vai fintando o envelhecimento através de descobertas que permitem o progresso neste sentido.

Para a vimaranense, o interesse pela investigação despertou ao longo do mestrado em Engenharia Química, com especialização em Tecnologias e Protecção Ambiental, no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Os bons resultados estenderam-lhe o caminho: “Tinha uma cadeira de Biotecnologia. Quem tirasse boa nota poderia fazer um pequeno estágio num laboratório de investigação do ISEP. Foi o meu caso e, durante três meses, fiz essa investigação.” Depois, durante o Erasmus em Gent, na Bélgica, voltou a fazer investigação na área da tecnologia ambiental.

Quando voltou e concorreu a uma vaga no 3B’s, a casca do sobreiro fez logo parte dos seus dias. Está neste laboratório há “quase dez anos” e, mal chegou, começou a trabalhar “num projecto ligado à cortiça”. Foi a partir daí que a equipa começou a aperceber-se “das propriedades dos compostos”, a que se dedica há cinco anos.

Nessa dança entre a investigação (que está numa fase inicial), a natureza e o envelhecimento, a investigadora encontra tempo para si própria noutros ritmos. “Claro que tenho outros passatempos para além da investigação”, repara: o principal é a dança, que entrou na sua vida “por volta dos 24 anos”, logo depois de começar a trabalhar naquele grupo de investigação. “Comecei pelas danças clássicas, jazz e ballet”, conta. Agora, integra o Grupo Folclórico da Universidade do Minho. Conselho para quem não se importaria de bailar ao som do folclore minhoto (ou de qualquer outro ritmo): a música faz bem à saúde física e mental e, já se sabe, é terapêutica.

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