jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 24 fev 00:09

Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

Qualquer país civilizado – ou será melhor dizer respeitável? – louva os feitos da sua história e dos seus protagonistas. Não todos, mas os merecedores de louvor. E sabe distinguir homenagens e homenageados.

Saramago que me desculpe. Não encontrei melhor título para falar sobre um pacato tema do momento e peço emprestado o título de uma das suas obras-primas. Parece que um deputado da nação empreendeu um assinalável esforço literário num artigo de jornal para nos advertir de que o salazarismo ainda por aí anda.

Entre outros lamentos, o autor recorda o concurso televisivo em que Salazar foi votado o melhor português de sempre, relegando para lugar menor Luís de Camões. Sendo o nosso mais notável poeta autor de Os Lusíadas, uma epopeia épica que glorifica os Descobrimentos, é com espanto que poucas linhas depois se pode ler o senhor deputado a defender que, se fossemos um país respeitável (sic), não restaria pedra sobre pedra do Padrão erguido para os homenagear. Obrigado ao autor pelo aviso. Permita-nos, contudo, retribuir a gentileza advertindo-o também de que parece haver nos seus conselhos um conjunto de confusões porventura motivadas por alguma obstinação histórico-ideológica.

É verdade que o Padrão dos Descobrimentos foi erigido em pleno Estado Novo, primeiro de forma provisória, no contexto da Exposição do Mundo Português, depois de forma definitiva, para celebrar o quinto centenário da morte do Infante Dom Henrique. Até se compreende que a génese do monumento, incluída num evento de celebração do regime de então, não seja a mais recomendável. Também se percebe que revisitar algum do material panfletário usado na promoção do edifício na altura em que foi construído, e que se refere à “raça” portuguesa não traga boas recordações.

O que já é mais difícil de entender é a confusão entre o tributo aos Descobrimentos e quem historicamente o prestou. Como se costuma dizer, é misturar alhos com bugalhos e apenas se explica, quero crer, por uma exagerada dose de voluntarismo revestido de ainda mais ingenuidade. É que o texto dá a entender que a proposta do autor se justifica como uma forma de não mostrar complacência com grupos que apelida de neofascistas.

Ora, não consigo imaginar forma mais eficaz de dar força a tais grupos do que propor demolir um monumento magnífico, em forma de caravela, que faz parte da lindíssima silhueta ribeirinha da cidade de Lisboa, e de que a maior parte dos cidadãos que não habitam nas trincheiras da guerra direita-esquerda, fascista-antifascista das redes sociais se orgulharão. A oportunidade não terá aliás passado despercebida ao líder do Chega que se apressou a capitalizar e fazer o esperado ruído. Dir-se-á, pois, que a proposta não terá prestado um grande serviço ao antifascismo que norteia o autor.

O Padrão contém as representações de personagens que marcaram a expansão marítima portuguesa, que engrandecem a nossa história, que nos deram um lugar no mundo, e de quem os professores das nossas escolas nos falaram e falam aos nossos filhos, enaltecendo-as. E bem. O Padrão representa o Infante Dom Henrique, mas também Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães ou Afonso de Albuquerque, entre outros.

Além de um indizível tiro no pé no contexto da suposta luta antifascista, demolir o Padrão seria um atentado ao nosso património histórico e cultural. Pede-se, pois, ao senhor deputado – e também aos costumeiros exércitos que logo se formam nas redes – que deixe o Padrão em paz, à margem das suas lutas políticas, e que combata o fascismo – que, sim, merece ser combatido – com ideias e propostas políticas, que é aí que ele pode e deve ser vencido.

O Estado Novo aproveitou as celebrações dos Descobrimentos para se engrandecer? Sim, sem dúvida. Mas os Padrão é uma homenagem aos Descobrimentos e não ao Estado Novo. E convém que não se perca isso de vista.

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