www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 23 fev 14:01

Quem está a mexer no queijo do WhatsApp?

Quem está a mexer no queijo do WhatsApp?

No que toca a queijos, nem sempre o bolor é mau sinal. No que toca a aplicações de mensagens com mudanças de política duvidosas, nenhuma tentativa de disfarce elimina o sabor a azedo.

É com isto que se parece a segunda tentativa do serviço de mensagens WhatsApp para fazer passar modificações que levantam imensas dúvidas. Numa publicação de blogue onde denuncia "inúmeras informações erróneas" sobre o update que gerou polémica, o WhatsApp tenta explicar o que vai fazer de outra maneira. Ou seja, nada irá mudar no plano inicial, apenas a forma como ela é explicada, muito devagarinho, aos utilizadores em brasa.

A polémica rebentou no mês passado quando os utilizadores foram confrontados com a necessidade de aceitarem a expansão da partilha de informação entre o WhatsApp e o Facebook, que detém o serviço de mensagens. Não era uma novidade absoluta, porque já havia trocas de dados há anos, mas agora os utilizadores foram chamados a confirmar a sua autorização e a aceitarem a expansão das práticas no que toca à forma como as empresas que usam a rede armazenam as suas comunicações.

Para continuarem a usar o WhatsApp - um serviço que é gratuito, como a empresa detida por Mark Zuckerberg frisa neste texto - os utilizadores terão de aceitar estes novos termos de serviço e política de privacidade. "Algumas funcionalidades de compra envolvem uma interação com o Facebook para que as empresas possam gerir os respetivos stocks entre aplicações. Apresentamos mais informações diretamente no WhatsApp para que as pessoas possam escolher se querem ou não interagir com as empresas", lê-se na publicação.

O texto frisa que o WhatsApp tem encriptação ponta-a-ponta, o que garante a privacidade das conversas, e inclui uma diatribe contra as aplicações rivais que se estão a aproveitar da controvérsia para atrair utilizadores, alegando que estas não encriptam as comunicações da mesma maneira.

O problema, do ponto de vista dos utilizadores, é que nem a Signal nem a Telegram nem outras alternativas ao WhatsApp têm bocas de incêndio que jorram dados pessoais para os camiões sedentos do Facebook. Parece-me que a questão tem muito menos a ver com o medo que alguém tenha acesso às piadas secas num grupo de WhatsApp e muito mais com o alimentar do monstro que está sempre envolvido em escândalos de privacidade.

É isso que explica a explosão de descargas destas apps rivais nas semanas que se seguiram ao início da polémica. A firma Apptopia contabilizou um aumento incrível de 2368% nos downloads da Signal em Janeiro de 2021, por comparação ao ano anterior, com mais de 31 milhões de utilizadores a descarregarem a app. Já a Sensory Tower registou 63 milhões de instalações da Telegram no mês passado, o que significa que a popularidade da app quase quadruplicou em relação a 2020 e tem agora mais de 500 milhões de utilizadores mensais activos. A tendência também se registou em Portugal, onde se calcula que haja mais de cinco milhões de utilizadores de WhatsApp.

Vejamos, não é expectável que o WhatsApp deixe de ser a aplicação de mensagens mais popular do mundo. Mas é notória a insatisfação crescente dos utilizadores com as garras predatórias que o Facebook está a fincar sobre os nossos dados. É incontornável o surgimento (e sucesso) de mais plataformas centradas na segurança e privacidade, que não baseiem todo o seu modelo de negócio na ingestão de dados pessoais e na afinação obsessiva dos perfis de utilizadores.

Mais mãos a mexerem no queijo do WhatsApp, bolorento ou não.

Dizer que as conversas são encriptadas ou que os perfis são anonimizados não serve de muito. Há uma saturação justificada com as práticas do império Facebook e suponho que mais ou menos garantias, como estas que o WhatsApp veio agora publicar, não reparem grande coisa. O mal está feito. O mal continua. Resta saber por quanto tempo continuará impune.

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