sol.sapo.ptAna Cortes - 23 fev 23:01

Com que cara olharemos para os nossos filhos?

Com que cara olharemos para os nossos filhos?

Sinto-me envergonhada por pertencer a um país cujo Parlamento aprovou esta lei de ‘avestruz’, uma lei que mostra como a classe política está à margem do real problema das pessoas.

A recente aprovação da lei da eutanásia pela maioria dos deputados do Parlamento, no contexto desta terrível pandemia, deixou-me profundamente indignada. Não só pelo facto em si, mas também por acontecer num período em que morrem trezentas pessoas por dia, em Portugal.

Esta pandemia veio trazer à tona problemas que põem em destaque a questão da existência e do real valor da vida humana. Num momento em que muitos portugueses estão a dar a sua vida pelos outros até à exaustão, sinto-me envergonhada por pertencer a um país cujo Parlamento aprovou esta lei de ‘avestruz’, uma lei que mostra como a classe política está à margem do real problema das pessoas, uma lei que mostra a indiferença pelo que se está a passar, uma lei egoísta, com laivos de loucura: um louco é aquele que tem uma ideia e se fixa nela, ao ponto de não conseguir enxergar mais nada do que se passa à sua volta.

Nós, cidadãos, mais ou menos conscientes, temos uma responsabilidade, não só por nós e pelos nossos pais, mas pelas gerações futuras. Qual é o testemunho que queremos dar, enquanto adultos, aos mais novos? Que sinal é que esta lei dá a uma juventude sedenta de vida?

Enquanto professora, vejo que os mais novos têm o desejo de viver com um ideal grande e são capazes de nos bombardear com perguntas verdadeiras e existenciais. Por outro lado, vejo que também há cada vez mais jovens a cair na apatia e na perda do interesse pelas coisas e pela vida, como se essas perguntas fossem sendo abafadas. Porque será? O que é que eles veem muitas vezes à sua volta? Adultos que só estão preocupados com o seu metro quadrado e apostados em resolver a sua vidinha, e o resto é com os outros. Adultos que querem ter uma vida organizada e limpa, com tempo para si, sem grandes sobressaltos e desconfortos, em suma, uma vida cómoda. Sim, adultos que fazem parte de um episódio de uma série da Netflix, em que tudo está maquilhado, e o que não fica bem, o que lembra que a vida também tem dentro o sofrimento e a morte deve ser afastado, deve ser eliminado. Será que o modelo de vida que queremos passar aos nossos filhos é uma vida de sofá? De que maneira olharão os netos para os avós quando estes, pela doença ou pela debilidade, ficarem na sombra dessa possibilidade?

O que é certo é que a classe política aprova uma lei deste calibre durante o período mais crítico desta pandemia, durante o confinamento: «Vamos mas é aprovar isto enquanto estão distraídos», ou seja, enquanto uns estão a dar a vida, tomados pelo trabalho de assistência aos doentes, outros estão dilacerados pela dor da doença ou da perda dos seus familiares e amigos, outros vivem a angústia da perda do trabalho e outros, ainda, mergulhados na apatia do sofá.

Com que cara olharemos para os nossos filhos, quando nos perguntarem as razões desta lei? Que país desejamos construir?

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