ionline.sapo.ptAfonso de Melo - 23 fev 09:36

Da Trindade a La Higuera

Da Trindade a La Higuera

Poucas são mais dolorosas do que as imagens de prateleiras vazias, sobretudo quando são lugares que visitamos com a frequência alucinada de um viciado na composição das letras.

Depois de ter visto a foto do Che morto, nas montanhas de La Higuera, Luis Sepúlveda escreveu uma frase que misturava a tristeza e a solidão: “É sempre assim: nós ficamos com as fotografias; eles ficam com os continentes”. De Stroessner a Perón, de Juan Carlos Onganía a López Arellano, toda a América Latina era um mapa dorido de ditaduras impiedosas. Depois de ter visto as fotografias da livraria do meu amigo Bernardo Trindade, na Rua do Alecrim, com as prateleiras vazias como fantasmas e todo o interior frio como uma urna, lembrei-me de Sepúlveda: nós ficamos com as fotografias; eles ficam com os espaços. Por mais históricos e ricos de vida que tenham sido, a despeito de décadas de verdadeiro serviço público e, sobretudo, da paixão pela cultura, que é uma daquelas coisas em que, em Portugal, este país cada vez mais pascácio, as portas se fecham na cara dos que procuram, ainda, um lugar para manter vivos os nossos escritores mortos.

Leia o artigo completo na edição impressa do jornal i. Agora também pode receber o jornal em casa ou subscrever a nossa assinatura digital.

NewsItem [
pubDate=2021-02-23 09:36:56.0
, url=https://ionline.sapo.pt/artigo/725766/-da-trindade-a-la-higuera?seccao=Opinião_i
, host=ionline.sapo.pt
, wordCount=186
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_02_23_1886476459_da-trindade-a-la-higuera
, topics=[opinião]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]