visao.sapo.ptsvicente - 23 fev 08:40

Visão | Crítica de confinamentos

Visão | Crítica de confinamentos

Arrumar gavetas é irredimivelmente chato, a panificação transmite um sentimento de realização na primeira vez que não encontra paralelo nas vezes seguintes, e estreitar relações com os nossos entes queridos faz com que tenhamos saudades dos momentos insignificantes que passamos com os nossos entes indiferentes

Em 2019, nunca tínhamos experimentado um confinamento. Em 2021, já passámos por confinamentos suficientes para os organizarmos por ordem de preferência. Creio que existe um consenso generalizado no sentido de considerar que o primeiro confinamento foi superior a este. Mas talvez valha a pena fazer uma análise crítica mais profunda aos confinamentos, para apurar se essa opinião assenta em factos sólidos ou se não passa de uma mera impressão. O facto de termos vagar para empreitadas como “análise crítica de confinamentos” talvez seja uma primeira pista sobre os efeitos que o confinamento produz em nós, e uma razão decisiva para desconfiarmos da nossa capacidade de discernimento.

O primeiro confinamento beneficiou do efeito de novidade e foi recebido com alguma boa disposição. Havia um entusiasmo que, receio bem, a esta distância tem de ser reputado de palerma. Na ânsia de encontrar o lado positivo de uma situação adversa (que é uma operação estimável), algumas pessoas talvez tenham exagerado e desenvolveram um apreço um tanto excessivo por arrumar gavetas, fazer pão e estreitar relações com entes queridos – actividades que, um ano volvido, parecem um pouco menos divertidas.

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Do entusiasmo com o pão feito por nós passámos rapidamente à vontade de comer um pão feito por um padeiro que sabe realmente o que está a fazer. Da excitação com a novidade do primeiro confinamento passámos para o profundo aborrecimento com o segundo. Encarámos o primeiro com o espírito positivo de quem vai experimentar o campismo pela primeira vez: é um pouco desconfortável, mas vai ser giro.

Abordamos o segundo com a certeza de que isto é um cativeiro desumano. Estamos rabugentos, fartos e desesperados. Parece-me a reacção mais humana a uma situação desumana. Gosto mais deste.

(Crónica publicada na VISÃO 1459 de 18 de fevereiro)

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