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Cracolândia: o retrato “humano” do maior mercado de droga a céu aberto

Cracolândia: o retrato “humano” do maior mercado de droga a céu aberto

Entre 2017 e 2019, o fotógrafo carioca Gui Christ percorreu as ruas da Cracolândia, em São Paulo, zona conhecida por ser o maior mercado de droga a céu aberto do mundo. O autor do fotolivro Fissura garante, em entrevista ao P3, que “o crack é um sintoma e não a causa” do problema humanitário que ali se instalou.

O grande bairro hoje conhecido por Cracolândia, no centro de São Paulo, está instalado naquela que foi, há quase um século, uma das zonas mais ricas da grande metrópole. Os “Campos Elísios” paulistas foram derrubados pela crise bolsista de 1929, que ditou que as famílias de influentes barões de café que ali residiam abandonassem os seus palácios e que esses fossem ocupados, ao longo do século XX, por pessoas que procuravam abrigo.

"Foi-se transformando numa zona degradada, de crime e prostituição, onde as condições de vida se tornaram muito precárias", explica Gui Christ ao P3, em videoconferência a partir de São Paulo. "Ficou conhecida, na cidade, como 'Boca do Lixo'." No início dos anos 90, quando a cocaína atinge um pico de popularidade, "os traficantes viram o local como uma oportunidade de negócio e transformaram a área no que conhecemos hoje", relata. O subproduto da cocaína, o crack, que é das mais baratas e mais aditivas drogas do mundo, tornou-se muito popular na zona, dando assim origem ao nome Cracolândia.

“Quando menino, ouvia falar de um lugar no centro da cidade de São Paulo em que as pessoas perdiam as suas almas entre prédios abandonados e ruas sujas”, escreve Gui, no fotolivro Fissura. “Os noticiários falavam de homens de família que largavam os seus empregos, mulheres que abandonavam os seus filhos e crianças que se tornavam delinquentes após terem usado uma nova droga que chegara à cidade, o crack.” O fotógrafo manteve-se longe durante toda a sua vida, até que, em 2017, teve de ir fotografar o local para um trabalho. E, no terreno, viu um cenário diferente daquele que esperava. “Pensei que era só um mercado de droga. Mas na verdade é um bairro de moradores.”

Assim nasceu Fissura. O fotolivro tem como objectivo “humanizar” os moradores da Cracolândia. Com o auxílio de uma organização não-governamental de cariz religioso, que tem como função fornecer refeições e banhos aos que vivem nas ruas, Gui começou a ter um contacto mais directo com a população e a estabelecer relações de confiança. “Tinha oportunidade, ali, de fotografá-los na fila, enquanto esperavam serem atendidos, mas ninguém queria ser retratado”, explica o fotógrafo. Até que, já perto de desistir, um homem lhe perguntou se lhe tirava uma fotografia tipo-passe, “para que pudesse procurar emprego”.

Os pedidos multiplicaram-se e Gui acabou por montar um pequeno estúdio, onde passou a retratar os moradores. Fotografou mais de duas mil pessoas, ao longo de dois anos e meio, depois de terem tomado banho, trocado de roupa, cortado o cabelo. E, entre disparos, foi ouvindo as histórias de pessoas “praticamente invisíveis à sociedade”. “Histórias de homens que começaram a usar drogas para esquecer a angústia do desemprego; de mulheres que se drogavam para aguentar a vergonha de se prostituir para sustentar seus filhos; e crianças que fumavam crack para esquecer a violência, o frio e a fome de viver nas ruas.”

Gui conheceu todo o tipo de pessoas e “com histórias de vida muito diferentes”. O primeiro denominador comum é a pobreza. O segundo, não inteiramente transversal, a toxicodependência. “A faixa etária dos moradores é ampla. Na Cracolândia vivem crianças, adultos, idosos, pessoas de diversas partes do Brasil.” E muitos estrangeiros, que chegam ao Brasil como "mulas", refere, e que acabam por ficar no país sem qualquer apoio e com problemas de adição. Ou pessoas "sozinhas, que não têm família ou historial de abuso, e que acabam sem tecto e a consumir drogas.” 

“O contexto histórico é muito importante”, refere Gui. “Antes da chegada do crack, aquela já era uma zona problemática.” E esses problemas, conta, resultam da “pobreza, da falta de controlo policial, escassez de aparelhos públicos de assistência social e do estigma de que são vítimas os moradores”. Um dos principais inimigos, na opinião de Gui, é o preconceito que existe relativamente aos que habitam e frequentam a zona. “O problema não é o consumo de droga: perto da Cracolândia, na zona rica da cidade, o consumo de cocaína é muito elevado e ninguém considera isso um problema.” O estigma, na opinião do fotógrafo, está associado à pobreza. “O desemprego, a deambulação e o crime associados ao consumo estão na raiz do problema. A droga é apenas um sintoma. Muitos, naquele contexto de pobreza, consomem para conseguirem continuar a existir, a droga é o melhor que têm na vida.” 

Para Gui, é necessário pensar políticas públicas que apoiem e controlem o uso de drogas daquela população. “A prefeitura de São Paulo tem criado, nos últimos anos, mais apoios, mas são insuficientes.” Existe, em curso, uma tentativa de “limpeza” daquela região, alerta. A pressão imobiliária vai “empurrando” para outras zonas os moradores da Cracolândia, na esperança de que a zona possa ser reabilitada. “Poderão gentrificar, mas o problema não ficará resolvido. Os consumidores encontrarão apenas nova morada se nada for feito para os ajudar a sair do ciclo de pobreza.”

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