observador.ptObservador - 15 jan 00:03

Novo confinamento: porque chegámos a este ponto?

Novo confinamento: porque chegámos a este ponto?

Falhas iniciais no reconhecimento da gravidade da Covid-19, confiança a mais nos resultados da primeira vaga, indecisões e contradições são as princip...

Depois de ter ouvido os últimos dados sobre a mortalidade por Covid-19, que infelizmente voltou a bater novo recorde com números acima de 150 óbitos em 24 horas, com casos que variam entre 7500 a 10 mil por dia, é altura de fazer o ponto da situação. Que motivos levaram Portugal a estar hoje no grupo de países com mais casos de infeção e mortalidade por 100 mil habitantes? Quais serão as melhores soluções para esta calamidade, há muito anunciada e expetável por muitos?

Vamos começar por analisar o início da pandemia. A irresponsabilidade inerente às declarações feitas por várias entidades, principais atores numa situação pandémica, tais como a Direção Geral de Saúde (DGS), o Ministério da Saúde e o Governo foi uma realidade. Tardaram em reconhecer o estado pandémico e tardaram na tomada de medidas essenciais para reduzir o risco de contágio, como a utilização da máscara cirúrgica ou social. Assim, verificou-se um agravamento de forma exponencial dos casos em Portugal. Muitos especialistas foram alertando, desde o início, para a import��ncia do uso da máscara na prevenção da doença. Infelizmente, o consenso não foi geral, com afirmações perigosas e contraditórias. Quando um doente vai a vários médicos e ouve opiniões diferentes, acaba por ficar desorientado. Foi o que aconteceu em Portugal. As contradições e afirmações pouco científicas e mais empíricas tiveram um efeito negativo na mente das pessoas e, como consequência, estas acabaram por tomar decisões erradas na hora da verdade. Todas estas entidades tiveram responsabilidade direta e indireta no aumento de casos em Portugal. Para sorte delas e azar da população, os nossos resultados foram considerados bons a nível europeu na primeira vaga.

O elogio internacional provocou um relaxamento nas medidas, acima de tudo, na planificação a curto e médio prazo. Quando chegou a segunda vaga, muitas pessoas pensavam que Portugal seria, mais uma vez, exemplo para a Europa. As medidas extra, como a utilização obrigatória de máscara em locais públicos, mas com várias exceções, foram tomadas oito meses depois dos primeiros casos registados. Na primeira vaga, todos nós sabíamos que não havia máscaras suficientes para a população, sendo as disponíveis destinadas aos profissionais de saúde. Foi um erro não ter sido aconselhada a utilização da máscara social para reduzir o risco de contágio. A obrigatoriedade do uso de máscara devia ter sido implementada muito antes.

Quando a DGS reconheceu o aparecimento da segunda vaga, as medidas sanitárias tomadas foram insuficientes. Muitas vezes não foram aplicadas as multas devidas por incumprimento da lei em vigor. O que se passa hoje nos nossos aeroportos reflete falta de coragem em se implementarem medidas de controlo dos passageiros, nomeadamente os provenientes de países de risco elevado e muito elevado. Estes, com o agravamento do número de casos de Covid-19 em todo o mundo, deveriam apresentar um teste negativo realizado nas últimas 72 horas. Quem não o fizesse, não devia ser autorizado a entrar no país. As próprias agências de viagens deviam dar informações precisas sobre esta condicionante. Atualmente, em Portugal, se alguém entrar sem ter realizado o teste, pode fazê-lo no aeroporto ou até cinco dias depois. Quem garante a vigilância dos passos e contactos destes passageiros sem testes realizados à chegada? É utópico pensar que com estas medidas poderemos algum dia quebrar a cadeia de transmissão! Por experiência própria, há quatro semanas, em pleno voo, foi entregue um folheto informativo da DGS, que informava da obrigatoriedade do uso de máscara em locais fechados, não referindo que esta também deveria ser usada em espaços abertos. Todas as informações dadas deveriam ser revistas de acordo com a lei sanitária portuguesa.

Com números diários de infectados já elevados, o Governo optou por manter os festejos do Natal com risco acrescido de contágio entre familiares e amigos.

Esta festividade, uma das mais importantes do calendário, foi responsável pelo aumento significativo de casos que estamos a viver neste momento. Com a previsão de duplicação do número de casos a cada onze dias, o confinamento é inevitável neste momento. Os responsáveis desta situação são a DGS, o Governo e a população não cumpridora. A aprovação, em dezembro passado, da vacina da Pfizer e a sua posterior distribuição a 27 de dezembro a todos os Estados-membros da União Europeia criou uma justificada expetativa e poderá explicar um maior incumprimento.

Não houve unanimidade no critério a adotar na escolha dos grupos de risco prioritários para a vacinação. Enquanto Portugal optou pelos profissionais de saúde, outros países escolheram iniciar o processo pelos idosos. Um diretor de um serviço de doenças infecciosas foi simbolicamente escolhido para ser o primeiro português a ser vacinado. Neste momento, é importante haver um plano rigoroso de vacinação. E este deverá ser flexível, caso seja necessário alterar a prioridade em função da evolução da Covid-19.

Depois de um ano de pandemia, parece que continuamos a apostar nas contradições, indecisões e falhas por parte da população no cumprimento das regras sanitárias. Não é admissível que membros do Governo e de outras entidades, apareçam na televisão sem máscara durante as entrevistas e debates, mesmo respeitando o distanciamento social. Devem ser eles os primeiros a dar o exemplo.

Todos nós temos de contribuir para que o coronavírus enfraqueça a curto prazo. Não podemos contar apenas com a vacina milagrosa para controlar a pandemia. Será um erro se cada um de nós pensar assim. Prevê-se que o controlo da pandemia ocorra em 2022, segundo a OMS. Por este motivo, vacinar é importante e é recomendado a todos. A vacinação não dá uma garantia de cem por cento de imunidade, mas é a melhor forma de prevenir a doença.

Falhas iniciais no reconhecimento da gravidade da Covid-19, confiança a mais nos resultados da primeira vaga, indecisões e contradições constantes e falta de coragem na aplicação da lei em relação aos infratores são as principais razões que levaram a esta catástrofe, com consequências sociais e económicas incalculáveis para o nosso país e milhares de famílias devastadas pelo desemprego.

Os profissionais de saúde, que tiveram um papel crucial na primeira vaga, estão de novo a ser testados! Desta vez, embora tenham adquirido experiência na forma de lidar com os doentes mais graves, terão um trabalho ainda mais árduo pela frente, não só pelo número crescente de infetados, como pelo acumular do cansaço ao longo de muitos meses de combate à pandemia. Para eles, uma palavra de agradecimento e coragem. Que nunca tenham de escolher o doente que deve viver e o que terá de morrer por falta de meios técnicos.

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