www.publico.ptmanuel.carvalho@publico.pt - 15 jan 00:05

O futuro passa pelo confinamento

O futuro passa pelo confinamento

Portugal vive uma crise maior do que em qualquer outro momento nos últimos meses ou até do último século. Boa parte do que pode ser o futuro próximo decide-se por estes dias

Andamos há tantos meses a viver em estado de emergência que corremos o risco de banalizar a gravidade da expressão e, por força do cansaço, de a despir de significado e sentido. Esse é talvez o maior perigo que enfrentamos, agora que a pandemia no país chegou a um ponto crítico. Não apenas pelo número de contágios que vai continuar a aumentar e, sem confinamento geral, poderia ultrapassar a dramática barreira dos 30 mil por dia, de acordo com os especialistas. Não apenas pelas mortes causadas pelo vírus, que vitimam um português a cada dez minutos e vão, por certo, aumentar. Não apenas pelos sinais evidentes de ruptura no Serviço Nacional de Saúde, com as equipas de médicos ou enfermeiros a não serem capazes de acudir às necessidades de tratamento de tanta gente. .

Se, colectivamente, falharmos o controlo da pandemia nas próximas semanas, não será só necessário pagar o custo económico do confinamento, a perturbação social, a factura da saúde mental ou da perda de confiança nas instituições. Vamos ser forçados a viver muitos mais meses com níveis elevados de contágio e de mortalidade. Vamos perder a época turística. Vamos condenar muito mais pequenas empresas do comércio ou da restauração à ruína. Vamos agravar as frágeis contas do Estado, sobrecarregando ainda mais as próximas gerações com dívida. Vamos devastar a capacidade de resposta dos hospitais e exaurir as capacidades do pessoal da saúde. Vamos perder a concentração e a energia indispensáveis para definirmos o destino dos fundos europeus, a resposta às alterações climáticas ou da transição digital que determinarão o lugar de Portugal no futuro. Em Março de 2020, estava em causa o controlo da pandemia; em Janeiro de 2021, a pandemia parece ter entrado em descontrolo e nada mais nos resta senão admitir que o desafio é, pelo menos, tão grave a ameaçador como o de há quase um ano.

É por isso importante que não se considere o cenário actual como mais um episódio da longa série da pandemia. Não é. Este é o momento decisivo. Tudo o que se tentou evitar até agora está a acontecer. Chegámos ao limite e, se formos muito para lá do ponto em que estamos, corremos o risco de agravar os danos da pandemia com a perda da estabilidade política e social e da auto-estima que sustenta o nervo de um país. Se o confinamento falhar, o preço será altíssimo. Cada um de nós e todos enquanto comunidade temos muitos interesses em jogo nesta ameaça.

Resta uma só solução: levar o confinamento muito a sério. Olhar, como pediu o primeiro-ministro, para as regras e não para as excepções. Perceber que a decisão de cada um conta, seja a de um caixa de supermercado ou de um empregado dos serviços que pode trabalhar a partir de casa. Relativizar o perigo é exponenciá-lo. Virar-lhe as costas, por fadiga ou impaciência, por descrença nos políticos ou por dúvidas sobre as prescrições dos especialistas, é fugir à responsabilidade. Ficar em casa é mais do que uma opção individual: é um acto político, uma prova de empenho cívico, um gesto de resistência em favor do bem comum.

Num momento dramático como este, é dever do PÚBLICO alertar para a calamidade que vivemos e apelar a esse esforço colectivo indispensável para a vencer. Não está na hora de distribuir culpas, que as há, de encontrar responsáveis, que existem, nem sequer de propor alternativas, que são possíveis. Nas próximas semanas, o que é fundamental é reconhecer a dimensão da ameaça e enfrentá-la decididamente. Mais do que medidas, multas, regras ou excepções, importa cumprir a máxima de John F. Kennedy: está na hora de cada um perguntar o que pode fazer pelo país. Bastam a coragem e a determinação de Março e Abril para se poder reclamar vitória.

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