observador.ptObservador - 15 jan 00:05

Uma vacina contra a estupidez

Uma vacina contra a estupidez

A questão que os cidadãos devem colocar é se merece a pena serem cúmplices em restringir a liberdade dos seus concidadãos para nada.

Já é oficial o segredo de polichinelo. O país volta a fechar-se numa quarentena, como se fazer a mesma coisa pudesse obter resultados diferentes. Relembro que passou o confinamento e a doença não desapareceu. Melhor dito, quase desapareceu quando a temperatura aumentou pelo que, ou muito me engano ou, até Maio/Junho andaremos nisto outra vez. Também recordo que esse nunca foi o objectivo. O objectivo, se bem se lembram, era retardar a velocidade de contágio para preparar os sistemas de saúde para a combater. E dar tempo a que os médicos aprendessem a lidar com uma nova doença. Se no segundo caso houve avanços, porque a observação e a reflexão são as únicas formas de fazer ciência, no primeiro não tanto, porque depende essencialmente da existência de recursos e vontade política.

A paragem económica dificulta a criação de recursos adicionais de forma sustentada e a alternativa, o endividamento, neste caso público, teve como principal objectivo a sobrevivência política no curto prazo. Só coincidentemente é que parte desses recursos poderão chegar aonde são mais urgentemente necessitados e a coincidência nunca é total. Devem ser muito poucos os casos (eu não conheço nenhum) de governos que, dada a emergência, retiraram recursos antes atribuídos a outras áreas (educação, cultura, justiça, ou sequer à própria administração) para combater a tal “guerra” contra a Covid. O que chegou, chegou via novo endividamento, e teve que ser disputado entre os vários lobbies. Isto não é surpreendente, isto é o normal nos Estados modernos, onde a crença de que o endividamento público não só é inócuo como até benéfico, levou a que os políticos há várias décadas tenham deixado de tomar as decisões difíceis sobre a quem cortar recursos e tão só se dediquem ao cálculo eleitoral sobre a que grupos de interesse apoiar. Quando a população, ainda por cima, geralmente reclama e chama “austeridade”, já não à redução absoluta do gasto, mas à redução do crescimento do mesmo, podemos intuir que parte do problema é que a maioria das pessoas tem o governo que merece. Até porque as oposições também não propõem nada de fundamentalmente diferente.

A arte de governar recomenda transformar a ocasião numa oportunidade para aumentar o poder dos próprios governantes. Sem o travão de uma religião separada do Estado, ou uma ética liberal de limitação do poder do mesmo, os resultados podem ser desastrosos. Infelizmente, depois de passado o perigo sanitário que derivava essencialmente da ignorância sobre como combater a nova doença, a população que ordeiramente se recluiu nas suas casas, quer dizer, que voluntariamente entregou a sua liberdade, não parece ter pressa em reclamá-la de volta. A doença passou a ser a justificação para perpetuar aquilo que tenebrosamente recebeu o epíteto orwelliano de “novo normal” e que não é mais que viver sob uma espécie de Underground do Kustorica. Encerrados, com medo de um perigo irreal para a quase totalidade dos indivíduos. Isto é, se nós deixarmos.

Restringir a liberdade dos cidadãos de pouco ou nada serve para combater a doença de uma forma eficaz, isto é, numa forma em que os custos sejam inferiores aos benefícios. Em parte, isto sucede porque é impossível fazer esse cálculo. Uns indivíduos suportam o custo e outros recebem o benefício, e é impossível fazer uma apreciação intersubjectiva do lucro da sociedade porque esse lucro não existe. Mas parece-me óbvio que tentar que todas as pessoas se comportem no dia-a-dia como se habitassem dentro de uma sala de operações de um hospital, é um custo que está condenado ao fracasso. Mas o principal motivo que justifica o cálculo governamental, para qualquer governo, é que o custo real é suportado pela população anónima e os benefícios, reais e imaginários, são todos de seu mérito. E o principal custo que os governantes vão ter que enfrentar quando declararem “o fim da Pandemia” é não ter com que justificar a crise económica e social a que nos estão a condenar.

O “novo normal” descrito pela novilíngua covidiana é para continuar o tempo que for necessário. Não se iludam, não há nada mais permanente do que um programa de governo provisório. A questão que os cidadãos se devem colocar é se merece a pena serem cúmplices em restringir a liberdade dos seus concidadãos para nada. Pela moldura humana que assolou as praias durante o verão, está claro que as preferências manifestadas pela grande maioria não são as que os governos decretaram para o país. E o cenário apocalíptico que as praias a abarrotar anunciavam, se a Covid fosse de facto uma doença altamente letal, não se verificaram, por muito que a propaganda não deixe de referir-se aos aumentos exponenciais de casos positivos. Centenas de milhares de portugueses frequentaram as praias. Onde é que estão as mortes em massa? Mesmo quando uma vítima de um acidente rodoviário pode ser incluída nas estatísticas se estiver “positiva”? Só uma tirania de puritanismo bem-pensante está a condicionar as pessoas a aceitar um despotismo sem sentido sobre as suas vidas e a dos outros. Isto tem que acabar.

A alternativa, que nunca nenhum governo vai recomendar, porque deixa a descoberto a sua real incapacidade para “curar” as pessoas de um vírus que não vai desaparecer e que vai continuar a fazer vítimas durante muito tempo, seria reconhecer que grande parte da segunda, terceira e subsequentes ondas, que vão chegar à medida das necessidades governativas, são mais uma epidemia de casos positivos que de casos reais, para não dizer graves, ou mesmo letais, da doença. Apesar do pouco que se fez para isso, os hospitais estão a dar conta do recado e não é previsível que entrem em colapso, salvo nalguns casos pontuais, para os quais os sistemas de saúde até já deveriam estar preparados depois do que sucedeu no ano passado. Tiveram tempo de sobra para isso, mas que governo vai gastar nisso quando pode simplesmente fechar as pessoas em casa e negar-lhes serviços públicos e privados?

Se a isto juntássemos uma comunicação social que em vez de andar a alarmar as populações com o número de casos positivos, e a chamar irresponsáveis a quem, num dia caloroso de verão, decidiu ir à praia, se dedicasse a divulgar os trabalhos científicos mais relevantes, isto é, aqueles que através da experiência (já agora, aquela que tenha sido replicada em vários testes verdadeiramente independentes) nos explicam a eficácia dos tratamentos, da prevenção e quem são, de verdade, as pessoas que correm riscos reais (idosos, obesos, diabéticos, etc.) quando infectadas pelo vírus, e não em modelos estatísticos com bastate GIGO (garbage in, garbage out), podíamos aplicar individualmente uma abordagem mais eficiente no combate à doença que o colectivismo forçado dos comportamentos. Esta passaria por proteger de forma eficiente apenas aqueles que têm um risco real de padecer a doença (e não todos os “infectados” e menos todos os “positivos”) e deixar em liberdade a vasta maioria dos cidadãos para quem a doença não passará de uma maior ou menor moléstia.

Até esse dia, que espero que chegue, dado que a alternativa é o colectivismo e a miséria económica, social e cultural, estaremos a obrigar as nossas crianças a perceber uma realidade distorcida da vida em sociedade, onde muitos pais, influenciados pela comunicação dos governos e dos meios, primeiro lhes incutiram um medo irracional de morrer e, agora que esse temor se revelou totalmente infundado, a viver com o ónus de, em qualquer momento, se converterem nos assassinos dos seus avós. Crianças essas que estão na fase da sua vida em que uma parte fundamental da sua personalidade se cria e que dentro de uma década, década e meia, serão cidadãos de pleno direito da sociedade. A irresponsabilidade neste capítulo só não foi maior porque a maior parte dos governos foi confrontada com o facto de não haver retórica que justifique fechar as escolas sem abusar da paciência e passividade dos adultos e fomentar um desastre social imediato. Quer dizer, o custo para os governos era, neste caso, intolerável. Mas se as escolas podem estar abertas, porque não pode o resto?

A única forma de viver com a Covid (que, insisto, não vai desaparecer), é que cada um tome as medidas que julgue necessárias para se proteger e que a informação que se transmite seja para ajudar as pessoas a decidirem individualmente e não para justificar políticas mais ou menos restritivas sobre toda a população. A partir daí, que cada um actue como julgue necessário. Quem queira tomar a vacina que a tome, quem queira andar na rua com máscara (ou vestido com roupa protectora da cabeça aos pés) que ande, quem queira abrir o estabelecimento obrigando os clientes a usar máscara e desinfectar as mãos que o faça, quem queira passar o Natal sozinho que passe e quem não queira nada disto, que a tal não seja obrigado. A vida consiste em correr riscos mais ou menos calculados num ambiente de incerteza e, mesmo assim, no fim morre-se sempre. Vai morrer gente com esta abordagem? Vai. Mas não me parece que agora não esteja a morrer ninguém e, o que é mais grave, em Portugal estão a morrer de muitas coisas das quais não morriam antes, o que significa que muitas estão a morrer por causa da estupidez alheia. O que dava jeito agora mesmo, era uma vacina contra a estupidez, mas essa, nem que o Governo prometa, não vai estar nunca para breve.

Receba um alerta sempre que Ricardo Dias de Sousa publique um novo artigo.

Seguir
NewsItem [
pubDate=2021-01-15 00:05:08.0
, url=https://observador.pt/opiniao/uma-vacina-contra-a-estupidez/
, host=observador.pt
, wordCount=1563
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_01_15_1516453674_uma-vacina-contra-a-estupidez
, topics=[pandemia, opinião, oficina da liberdade, governo]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]