www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 14 jan 01:32

Desemprego: também há boas notícias

Desemprego: também há boas notícias

Tenho lido algumas opiniões sobre ″(des)emprego″ neste contexto de crise. As opiniões são quase invariavelmente sobre o diagnóstico dos números - que são maus, claro - e a sensação com que fico é que muitos que escrevem nunca criaram um posto de trabalho na vida.

Tenho lido algumas opiniões sobre "(des)emprego" neste contexto de crise. As opiniões são quase invariavelmente sobre o diagnóstico dos números - que são maus, claro - e a sensação com que fico é que muitos que escrevem nunca criaram um posto de trabalho na vida.

Lembro-me bem das aulas de macroeconomia do Professor João César das Neves, que estavam sempre "à pinha", e da discussão sobre desemprego: estrutural, conjuntural? Há dois aspetos que importa distinguir:

-- alguns setores - empresas - perderam todo o seu mercado; isso significa desemprego quase total (hotelaria, restauração, aviação, algum comércio, entre outros).

-- outros têm - mantêm - um enorme desafio no recrutamento: e isto era assim antes da pandemia, e mantém-se até hoje (tecnologias de informação, saúde, energia, distribuição, entre outros).

Por isso, é muito importante que as pessoas compreendam que o desemprego não é transversal a todos os setores de atividade económica.

Escrevo estas linhas, na esperança de que estas não sejam abafadas pelo ruído "negativo" permanente, mas também as afasto da "negação" dos desafios que temos pela frente. Em concreto, desmistifico exemplos de generalidades que se leem por aí:

1. Para as pessoas desempregadas: o desemprego cresce, e não há oportunidades.

Isso é parcialmente verdade. Não é para todos!

O desemprego subiu de 6,2% em março* para 7,2% em novembro**. É muito. Mas tem que se saber que há áreas que mantêm por preencher inúmeras vagas de emprego. No grupo onde trabalho, temos, ao dia de hoje, mais de 200 vagas de emprego por preencher: na transição energética e na transformação digital. São posições para especialistas como programadores, técnicos de instrumentação, cientistas de dados, eletricistas, eletromecânicos, mecânicos de hidráulica, engenheiros de redes, especialistas de sistemas, ou engenheiros de automação. O que sabemos é que para as profissões onde é preciso "saber fazer", há muitas oportunidades, quer em Portugal, quer no mundo, quer a fazer trabalho de Portugal para o mundo! Desmistificação: há áreas com muita falta de talento, e as escolas profissionais e a Academia não têm alunos suficientes para entregar pessoas formadas a todos os empregadores!

2. Para as pessoas com muita formação que não encontram trabalho na sua área: para o meu perfil, a minha formação, não há emprego.

Então reconstrua a sua formação, e aprenda a fazer "coisas" para as quais há emprego. "O saber não ocupa lugar", diz o povo. Fazer o reskilling para o que o mercado precisa é o caminho. A Milene é uma antiga estudante de psicologia - que conheci na apresentação pública dum programa de upskilling - e que nos contou que encontrou um mercado de trabalho pouco justo no fim do curso. Então fez uma formação em programação durante alguns meses, e a sua vida mudou. É mesmo preciso fazer acontecer: não chega ler este artigo, ou ouvir palestras de "gurus"! Fazer este caminho implica dedicação, trabalho, estudo e esforço, e alguma estratégia.

Desmistificação: há setores onde as vagas de emprego ficam por preencher. Descubra quais são - muito fácil através de meios online - e faça formação para trabalhar noutras áreas. Mudar de área de trabalho nem sempre é uma questão de "gostar", mas sim uma questão de "querer", pelo facto de "precisar". Ficar à espera dum emprego na sua área pode demorar muito tempo.

3. Para as pessoas que não têm formação superior, não há emprego.

Sabemos que há uma relação direta - estatística - entre formação e nível de empregabilidade. Mas isso é em geral... ora não é a estatística nem esta generalidade que arranja emprego a alguém.

O "saber fazer" é hoje muito valorizado no mercado - e um "skill" cada vez mais escasso. Os setores de pleno emprego contratam pessoas com formação superior, mas uma boa parte dos empregos nesses setores não precisam de formação superior. Pode ser programador, eletricista ou técnico de instrumentação, sem formação superior. Mas para trabalhar nas áreas de pleno emprego, tem de fazer por isso. É preciso "aprender a fazer as coisas" necessárias que o mercado pede e paga: através de formação específica - mesmo não superior - é o caminho. Quem "não está para isso", está a escolher aceitar a situação.

O Estado ou as empresas colocam meios formativos à disposição das pessoas - academia, escolas profissionais, Institutos de Formação Profissional, programas de reskilling - mas as pessoas têm que dar o passo em frente. É preciso querer aprender para depois trabalhar numa área que o mercado valorize. Aprender, desaprender e reaprender! Em vez de precisar de inspiração, este é um assunto que precisa da "decisão" de cada pessoa!

Quando voltar a ver números, relatórios ou notícias sobre o desemprego, faça as perguntas seguintes: quais são as áreas que não conseguem preencher todas as vagas disponíveis? E que formação é necessária para trabalhar nessas áreas? Depois é fazer. Fazer é valor.

É útil voltar sempre às escolhas: vai querer ficar à espera - quanto tempo? - da próxima oportunidade naquilo que sabe fazer? Ou vai procurar - em detalhe - as áreas de pleno emprego, e fazer o caminho para lá estar? Esse caminho implica trabalho, esforço... e o Estado não o pode fazer por ninguém. Lembre-se: há desemprego a crescer, mas também há boas notícias!

* Fonte: INE, publicado em 02 de junho de 2020;

** Fonte: INE, publicado em 07 de janeiro de 2021 (resultados provisórios);

Pedro Afonso, CEO da Vinci Energies

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