jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 14 jan 08:17

Um ano a dois tempos e a duas vozes

Um ano a dois tempos e a duas vozes

Se, por um lado, estou relativamente otimista quanto à dinâmica de uma economia privada depois do segundo trimestre de 2021, por outro, estou muito negativo quanto à dinâmica da economia pública.

Em jeito de antecipação económica, prevejo que o ano de 2021 decorra a duas velocidades e a duas vozes. Numa primeira metade do ano antecipo ainda uma degradação da atividade económica, a qual depende muito das consequências internas e externas dos confinamentos.

Estamos a assistir a reações muito diferentes e preocupantes com fechos totais na Alemanha e no Reino Unido que podem repetir-se noutros grandes países. Na Europa preocupam-me os grandes mercados para onde exportamos bens (Espanha, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) ou de onde têm origem os turistas (Reino Unido, Espanha, França, Alemanha).

Para nós, é fundamental que, em primeiro lugar, os Planos de Vacinação corram muito bem e sejam céleres. E, em segundo lugar, que as economias destes países comecem rapidamente a recuperar a dinâmica necessária para estimular as nossas exportações. Pode parecer estranho, mas é mais importante que os planos de vacinação sejam céleres e bem-sucedidos nestes mercados do que em Portugal. Europeus vacinados podem viajar para destinos não vacinados. Mas o contrário não se verifica.

Por isso mesmo, e temendo que o primeiro trimestre seja ainda um mau trimestre em termos económicos, estou à espera de uma recuperação algo rápida e com alguma dinâmica a partir de meados do segundo trimestre. Por isso, e admitindo que tal se verifica, tendo em conta a capacidade de absorção de desemprego que o turismo provoca em Portugal, até estou algo positivo quanto ao segundo semestre de 2021.

Isto é, um primeiro semestre muito comprometido pela sua primeira metade e uma aceleração na parte final do ano.

Claro que um Portugal puxado essencialmente por turismo não é o desejável, nem o que devemos almejar para a sustentabilidade de longo prazo. Apenas permite evitar um desfecho muito infeliz para o final das moratórias bancárias marcadas na maioria para setembro de 2021.

Por outro lado, teremos o suposto efeito do Plano de Recuperação e Resiliência. Mas quanto a esse, temo que 2021 não venha a beneficiar significativamente a economia portuguesa porque estimo uma demora considerável para arrancar. Há que preparar a emissão de obrigações num processo que vai ser novo e que exige cuidados legais inovadores na União Europeia e com especial delicadeza.

Ainda estou para saber se esta emissão europeia de dívida vai exigir aos Estados ratificações ou aprovações de alguns documentos do processo em organismos locais como parlamentos. Além disso, há todo o processo de preparação da emissão propriamente dita e depois a canalização dos fundos. Ora, eu temo que, a haver algum efeito, este se sinta apenas na parte muito final do ano, na melhor das hipóteses no quarto trimestre.

Em suma, se por um lado estou relativamente otimista quanto à dinâmica de uma economia privada depois do segundo trimestre de 2021, estou muito negativo quanto à dinâmica da economia pública. Tudo porque cantámos no verão do crescimento económico sem aforrar devidamente para um inesperado, mas rigoroso, inverno que surgiu.

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